Alguma coisa mudou em mim. Alguma coisa rachou e rompeu. Nada será como antes minha casca caiu eu voltei do mar salgado sob o dourado pôr do sol as feridas foram limpas a dor me amainou só as cicatrizes ficarão do passado alguma coisa mudou. As palavras saem terrivelmente verdadeiras a guerreira apareceu os curativos só me fazem lembrar da força deste meu templo carnal não posso mais seguir ninguém o derradeiro mestre surgiu não há mais tempo para engodos a plenitude alcançou cada momento. O silêncio se fez morada para que o grito se faça ouvir mais longe as vozes não serão poupadas ressoando em cada coração amigo meu chamado unirá a tribo não há mais tempo para disfarces mostre sua singular beleza e assuma seu lugar. Não espere pelos meu floreios minhas gentilezas quando existem são reais eu sorrio e amo por inteiro não é preciso alarde minhas lutas são bem selecionadas contra as mil e uma faces da Deusa não ouso desperdiçar energia batalha boa é me reintegrar através do valoroso inimigo. Alguma coisa mudou em mim é ainda difícil vislumbrar os contornos sob a forma incandescente a labareda me fez de novo após mais um longo mergulho minha terra e meu povo me chamam e já não vacilo sou a deusa guerreira do fogo e com o vento me aproximo.
Eu me perdoo.
Por todas às vezes que eu disse que não ia
e fui.
Por todas as palavras contraditas
Por todas as ações julgadas e incompreendidas
que mais tarde eu repeti.
Eu me perdoo
pelos sonhos desfeitos
pelos sonhos trocados.
Eu me perdoo
por ser tão imaginativa
por sonhar tão docemente viver outras vidas.
Eu me perdoo
por mudar de ideia
de voz
de corpo
de postura.
Eu me perdoo
por voltar atrás.
Eu me perdoo
por abrir mão daqueles que amo
por aprender que o amor é tão fugaz.
Eu perdoo minhas mortes e renascimentos.
Perdoo meus dramas.
Minhas máscaras todas.
Perdoo minha multiversalidade.
Eu me perdoo por não ser sempre a mesma.
Eu me perdoo por não corresponder as expectativas
nem as minhas
nem as dos outros.
Eu me perdoo
por tantos amores e paixões.
Eu perdoo meus desenganos.
Minha ingenuidade.
Minhas projeções.
Minha utopia.
Eu me perdoo
pelos desejos de felicidade e amor.
Eu perdoo minhas esperanças.
Meu mau humor.
Minha intensidade.
Minha história.
Meu processo.
Perdoo meu coração
e todas as vezes em que disse a ele "não".
Eu me perdoo por sorrir e mudar.
Perdoo minha alegria
e meu eterno recomeçar.
Eu me perdoo por desistir,
selecionar.
Que no meu mundo
só cabe quem quiser ficar.
"Eu quero dizer / Agora o oposto do que eu disse antes / Eu prefiro ser / Essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião / Formada sobre tudo / Sobre o que é o amor / Sobre o que eu nem sei quem sou Eu vou desdizer / Aquilo tudo que eu lhe disse antes..."
O que eu escolho agora é o amor maduro
Um amor que enxergue todos meus defeitos
Que reconheça toda minha força
E que ainda sinta o desejo de me envolver em seus braços.
Um homem que fique ao meu lado
Não para me ajudar, ou me proteger
Nem porque precise de mim
Mas sim, porque quer ficar.
Eu não serei compreensiva
Nem compassiva com suas vitimizações
Não vou me conter para que você possa se sentir melhor
Eu não vou me calar.
Nem irei competir, ou te subjugar
Não te jogarei a máscara do incapaz para que eu possa me sentir mais importante
Enxergarei todos seus defeitos
Todas suas atitudes irritantes
E continuarei te amando.
Meu amor e minhas cicatrizes já estavam aqui antes de você chegar
E continuarão quando você se for
Sou capaz de vivenciar intensas alegrias
E tristezas profundas.
Eu posso me manter sozinha e da mesma forma tomar minhas decisões
Vivo plenamente em minha própria companhia.
Quando te olho, sei que você é tão inteiro quanto eu
E me sinto honrada por partilharmos essa caminhada.
Sei que posso partir a qualquer momento
Se assim meu coração desejar
E que da mesma forma, você possa seguir trilhar um outro rumo
Para sua felicidade.
Cada dia que nossas escolhas coincidem em prosseguir juntos na mesma direção
É um milagre
uma sagrada e rara benção com a qual mutuamente nos presenteamos.
Estamos conscientes. Os véus cor de rosa foram rasgados. Estamos despidos de todas as formas.
E todas nossas marcas, nossas histórias, cada pedaço de corpo e alma à mostra
Aumenta o respeito, o desejo e a admiração.
Cada passo que dou em busca dos meus sonhos
Estou mais perto de você
De todo amor que eu jamais imaginei sentir
E receber.
Calorosamente
Você me leva de volta para casa
Para meu próprio coração.
"Sempre que estou sozinha com você / Você me faz sentir em casa de novo
Inteira / Jovem / Como se eu fosse divertida de novo
Mesmo distante / Eu sempre vou te amar
Mesmo eu estando longe / Eu sempre vou te amar
Qualquer palavra que eu diga / Eu sempre vou te amar
Sempre que estou sozinha com você / Você me faz sentir livre de novo
Limpa de novo
Mesmo distante / Mesmo eu estando longe / Qualquer palavra que eu diga / Eu sempre vou te amar / Porque eu te amo."
Será que treme de medo o broto quando saindo da terra avista a luz? E nessa hora ele ainda pode escolher se continua crescendo ou não? E quando sente a primeira brisa de vento, o primeiro raio de sol, ele estremece? Ele confia? Ele continua seguindo o coração durante a travessia?
"O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar /Plantar nalgum lugar / Ressuscitar no chão / Nossa semeadura / Quem poderá fazer aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Dura caminhada / Pela noite escura
Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Se o amor é como um grão / Morre, nasce trigo / Vive, morre pão."
Tenho sempre a esperança de que vai chegar um tempo na minha vida em que eu vou querer ter mais tempo de vida pra viver Isso me encanta e me apavora E se um dia eu estiver tão envolvida com essa vida a ponto de não querer mais ir embora? E se então eu for castigada com a partida? Mas e se esse dia nunca chegar e eu nunca me sentir plenamente aqui? Se esse grito de saudade continuar ecoando em mim de mim? Se a lembrança de terras distantes continuar apertando meu coração e eu nunca encontrá-las aqui? Serei uma derrotada ou simplesmente, infeliz? E se então eu for castigada com uma longa vida pra viver? Temo pelo futuro nem ele me tranquiliza isso me cega de várias formas E na dúvida do que ele me reserva não vacilo e agora mesmo me castigo.
Meu pai me ensinou que cada pessoa é única e insubstituível. Eu aprendi a ter esperanças no futuro e que a vida é uma sequência de surpresas... nunca se sabe o que pode acontecer. Meu pai me ensinou que a verdadeira presença está no quanto se é lembrado. Eu aprendi que o vazio faz parte do inteiro, que cada lacuna tem sua função. Meu pai me ensinou a usar a imaginação. Eu aprendi a criar todos os recursos de que preciso, a me alimentar das histórias. Aprendi que eu podia ser qualquer coisa e que ele podia ser qualquer pessoa. Meu pai me ensinou as inúmeras facetas do bom humor. Eu aprendi a driblar os estranhos com sorrisos, me defender com escudos de sarcasmo à aproximação do perigo e a valorizar imensamente as calorosas risadas de alegria. Meu pai me ensinou a esperar. Eu aprendi a ser paciente e observar com cautela antes de agir ou escolher. Aprendi a ouvir minha intuição e a mergulhar com profundidade na escuridão. Meu pai me ensinou o que significa ser forte. Eu aprendi a ser resiliente. Descobri na morte a insuperável força da vida. Aprendi a morrer e a lutar, a morder e conquistar, a arranhar e gritar, a buscar e a sangrar. Conheci meus limites e minha fúria. Aprendi a levantar. Meu pai me ensinou que a distância é relativa. Eu aprendi a agradecer. Desapareceu num golpe de mestre esquentando a fornalha onde, quem sou, foi forjada. Meu pai me deu papel, tinta e pena. Eu aprendi a escrever. Ele me deu à vida, e desde aquele instante venho escrevendo minha melhor história. Ao meu pai, por me brindar com sua ausência e me permitir vivenciar essa existência com tamanha intensidade.
Haverá nesta terra outro homem, mais paciente que tu? Que me amará, apesar do que me recuso a dar?
Tu viu meu vício, minha beleza e dor. Ensina-me a me amar.
Quando irei assumir minha arte? Minha bebida, meu cigarro? É o mundo que está errado?
Quando assumirei tudo o que me atrai, toda sujeira desse mundo que me desperta?
Quando anjo sonho em ser diabo, mas quando endemoniada nem me reconheço; rezo então para que nenhum conhecido apareça, enquanto de tanto prazer me esqueço.
Donde estás, amor? Fui eu que me escondi? De tantas máscaras, nem me suspeita?
Quando a pele sentirei em liberdade? Ainda nessa vida me permitirei?
Há sempre tantos talvez, e mais alguém de quem me esconder. De quem são os sentimentos que protejo? Por que me importa tanto esses canalhas?
Importa-me? Enoja-me essa deslealdade; a esses porcos me primo, a mim mesma me nego. Que maldição me persegue?
Chega, chega, basta de torturas!
E se quero ser essa desregrada dos meus sonhos, das minhas noites particulares, é essa sensata que me consome.
Até quando serei duas, serei mais? Seria essa minha natureza, multiversada?
Eu é que sou melindrada, que o mundo nem se espanta mais com coisa alguma! Nem me veem os olhos do mundo. E já que ninguém me vê, por que não ser eu mesma? Aquela abusada que já sou esgueirando-se pelas sombras... Donde estás, amor, para que me permitas?
Donde estás? No rosto que me nego olhar? No beijo que me recuso dar? No êxtase de loucura que não me deixo entregar? Donde estás?
E tu, que me vistes antes da chama apagar, que me dizes? Haverá outro homem que me amará?
Haverá tempo para engolir o orgulho, para assumir-me frente quem diz me adorar? Irei entender minha loucura, abraçar minha sombra, orgulhar-me desse amor verdadeiro?
O mundo não se importa, já te disse! Basta de querer ser. Seja o animal ferido que és, deixando teu rastro de morte e vida por onde passas, seja, que logo iras curar-te, logo vês. Que a tua salvação é cair. Que é preciso morrer semente para nascer árvore.
Basta de lamúria, amor. É chegada tua, minha hora. E assim que parar de tanto drama, ainda haverá tanto pra contar!
Ainda haverá tantas histórias, que tuas lágrimas, doces e amargas, se fazem rio... fluindo para o mar eu vou te encontrar, com teu chamado angustiando meu coração, vou te encontrar... meu amor, cá estás!
"Estou cansado de chorar e não amanhece / Já não sei se te maldizer ou por você rezar / Tenho medo de lhe procurar e de lhe encontrar / Onde meus amigos me dizem que você está / Há momentos em que prefiro me abrir uma fenda / E arrancar as raízes do meu sofrimento / Mas meus olhos morrem se olham nos teus / E o meu afeto, com o amanhecer, volta a lhe esperar
E por sua conta decidiu pelas festas / Pomba negra por onde, por onde você anda? / Não brinque com minha honra boêmia / Se suas carícias devem ser minhas e de ninguém mais
E embora eu te ame loucamente, não volte / Pomba Negra você é o peso do meu sofrimento / Quero ser livre para viver minha vida com quem eu queira / Deus me dá força que estou morrendo por ir buscá -la..."
Com 12 anos, escrevi que tudo o que eu precisava cabia numa mochila. E cada vez mais me aproximo desse ideal, cada vez mais carrego menos.
E se eu me libertar, bem sei, poucos irão se agradar. Bem sei quantas decepções causarei, mas eu tenho um sonho de liberdade que grita por se tornar real.
Sei bem o que esperam de mim, responsabilidade sempre foi meu segundo nome... Se pudessem ouvir o quanto meu coração anseia pela inconsequência de viver sem amarras, sem amanhãs...
Lar, eu sei, é onde meu coração está. E agora ele não se encontra em nada louvável, respeitável, honroso. Meu coração vive me perguntando 'quando?'. Sufoco-o com todos os compromissos que eu acho que devia ter, com a vida que eu acho que deveria querer levar. Ele aperta meu peito nesses dias estranhos.
'Quando?'
Tudo que eu queria era me encaixar, mas a quem isso importa afinal, se no final do dia meu coração clama, 'quando?'
A culpa contamina minha alegria de ser livre, mancha meus dias com 'eu não devia'. Sinto-me impotente diante da carrasca inflexível em que me torno. Roubo minha própria alegria. Os sonhos são impossíveis, 'as pessoas dizem que...'. E eu vivo nessa história sem nenhum amor, porque me parece que é assim que essa história deveria ser. Sem paixão, eu faço tudo certo. No vazio dentro de mim, meu coração ecoa, 'quando?'.
Vejo luz através das rachaduras. Temo pelo estrondo que virá. Poderei um dia me perdoar? Me tornarei uma indisciplinada? Estarei fazendo a coisa certa? Se ainda fosse uma escolha... Mas já não há mais tempo de voltar atrás. Eu nunca soube quais pedaços de mim cairiam, quais das minhas faces eram máscaras, mas ainda assim escolhi esse caminho. Relutante, cada vez que vislumbro o percurso, minha mente diz 'não'. Ela tem a razão, mas não contabiliza minhas ações e vitórias. Minha ânima pertence a outro mestre. A fagulha em meu centro incendeia e tudo que sei de mim cai por terra. Então recomeço, caminhando sigo construindo meu caminho.
Anseio a liberdade do vento, a solidão alegre das noites estreladas, o preenchimento de mim mesma com meus sorrisos, a sensação libertadora do nada, a doce independência de não ter compromissos com os conselhos, o saber-me livre até quando a vontade de ficar me encante.
Que me perdoem os outros com suas expectativas. Eu nunca fui mesmo uma boa menina.
Reafirmo minha fidelidade com meu coração e respondo-o, em meio a dor da dúvida, da libertação e da despedida, 'agora!'.
"Sentindo o meu caminho em meio à escuridão / Guiado pela batida de um coração / Não sei dizer onde a jornada vai acabar / Mas sei onde começar
Dizem-me que sou muito jovem para entender / Dizem que estou preso em um sonho / Bem, a vida vai passar por mim se eu não abrir meus olhos / Por mim tudo bem
Então, acorde-me quando tudo estiver acabado / Quando eu for mais sábio e mais velho / Todo este tempo eu estava procurando por mim mesmo / E não sabia que estava perdido
Tentei carregar o peso do mundo / Mas só tenho duas mãos / Espero ter a chance de viajar o mundo / Mas não tenho nenhum plano / Gostaria de poder permanecer jovem assim para sempre / Sem medo de fechar meus olhos / A vida é um jogo feito para todos / E o amor é um prêmio
Na mania de correr, às vezes me afasto demais das coisas que realmente importam. Para mim. Nas vozes alheias ouço todas as cobranças e acusações da minha própria neura tirânica. E me sinto menor. Esqueço de ver a pintura completa, perdida nos detalhes. Esqueço que cada ponto dessa trama é essencial para a imagem final. Perco a dimensão das coisas. De mim. E é preciso voltar ao centro. Nem que seja arrastada. Olhar para minha pequenez limitante e perceber que a essência não precisa de grandes espaços. Ela encanta pela sua intensidade embriagadora, pela força contida em tão pouco. Ela é procurada por sua raridade. E tudo tem o tamanho exato de que precisa ter. E tudo precisa ser exatamente como é. E é porquê as coisas são o que são que têm o tamanho que possuem, perfeito.
Foto do livro: "A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken" de Jostein Gaarder e Klaus Hagerup.
Mais conhecido (por mim) como soco no estômago.
Perco todo o ar, as lágrimas vão formigando fazendo seu caminho, vão subindo, apertam dolorosamente o peito, parando na garganta.
Tento me recompor. Sinto o desespero olhando a cara descarnada da verdade. Então eu me dou conta, e é insuportável.
Tapo meu rosto com as mãos, meus olhos... eu não quero ver, dói demais encarar essa senhora. A verdade de repente está ali, a resposta.
Eu mal consigo suportar quando recebo tudo aquilo que pedi. Eu não mereço, é tudo que posso pensar no terror de me encontrar.
Sinto-me devastada pelo turbilhão de ondas, não tenho tempo para retomar o fôlego, uma depois da outra. Imagens, palavras, lembranças, sensações, as lacunas se esclarecem, as peças se encaixam.
E eu não entendo porque me assusto tanto toda vez que conquisto o que busquei.
Meu corpo exausto, travei mil batalhas num minuto, depois o vazio. Preenchê-lo com o cristal, agora ali solidificado, da compreensão, ou com as desconfortáveis mas conhecidas ilusões e embaraços?
A coragem e o amor que tenho bastam pra recomeçar, de novo?
Lembro do sangue escorrendo pelos meus braços. As gotas vertendo da pele branca deslizando quentes grandes pérolas vermelhas lembrando que em mim ainda existia vida.
Lembro dos tênis manchados com meu precioso sangue. Dos longos dias que se seguiram calçando aqueles tênis, do quanto as manchas escuras pareciam apropriadas, parecia que elas sempre tinham estado ali. Todo dia elas me lembravam da dor característica das lâminas rasgando minha carne, agoniante, como o som de unhas riscando um quadro negro, me preenchendo de um alívio tenebroso no final. Eu fechava os olhos esperando pelo fim. Valia a pena, eu pensava. A tristeza calmante que me invadia valia qualquer corte, eu podia até dormir depois. E a dor que permanecia, nos dias seguintes, eram paliativos, pequenas doses calmantes que me mantinham tranquila. Quanto mais fundo o corte, quanto maior a dor, mais tempo, eu sabia, perdurava a paz. Ninguém percebia, ninguém nunca percebeu. Ou quase ninguém.
Lembro da indiferença que me permitiu sobreviver, enquanto calava meu desespero. Nada podia me afetar. Nada nem ninguém podia chegar tão perto. Eu estava reclusa, eu não era deste mundo, distante como uma estrela fria. Eu não podia me importar, o vácuo silencioso do universo me consumia, eu assistia a perfeita dança do caos, eu estava tão, tão longe... eu mal conseguia enxergar. Distinguia a lua, e antes que meu desespero retornasse, ela me prometia paz eterna. Sentia sua etérea atmosfera, o conforto dos seus gelados braços, enquanto ela vertia em minhas feridas seu bálsamo prateado, e eu entrava em um lindo sonho recebendo um erótico e seco beijo da morte.
E se a fraqueza era visível, eu me alegrava por estar mais leve, mais perto do meu lindo sonho. Não havia calor capaz de me alcançar, eu estava abrigada, perdida num imenso castelo de gelo. Eu nem imaginava que ainda tinha um coração. E quando eu tingia de vermelho toda aquela brancura, só conseguia ver a incrível beleza do contraste, a beleza triste da desesperança, a doçura da entrega... eu estava obcecada pela beleza do fim.
Vivia embriagada pelas visões geladas, pela solidão permissiva, pela fuga. Nada me interessava nesse mundo, além da possibilidade de fugir. Nada valia mais do que poder dizer adeus. As fugazes alegrias passavam por mim como uma brisa. Nada podia, nem precisava ficar; logo, seria eu que iria embora. Não era preciso comer, ou cuidar da saúde, ou manter relações, ou ter dinheiro; só uma coisa precisava dar certo, só uma coisa...
Eu seria como um vento triste que passou levantando algumas folhas. Eu seria um dia cinza assistido sobre a fria areia de uma praia vazia. Eu seria uma noite estrelada registrada em minha própria memória eterna. Nada, nem ninguém, podia me trazer de volta.
A loucura me içou com braços firmes e quentes, ainda que eu não pudesse ver; me manteve seguramente iludida, enquanto as intermináveis tempestades faziam todo o barco ranger. Delirante, eu sonhava acordada com a mortalidade; debaixo de uma chuva torrencial, ela já fazia de tudo para me manter aquecida, para que a circulação vital fosse preservada durante o tempo todo que fosse preciso.
E apesar de toda sua possessividade; apesar de manter-me abraçada quando já não era mais necessário; apesar de ter visto toda fúria devastadora nos seus olhos assim que acordei; ainda assim, só posso agradecê-la. A toda força e resistência que seu exemplo me ensinou. Àquela parte louca e obscura de mim mesma, eu agradeço todos os dias de minha vida que tive deste então. À negra face, assustadoramente indestrutível, que amparou e permitiu a sobrevivência de todas as outras, a minha eterna gratidão.
Não é preciso que se esconda, você é livre, já sei onde te encontrar. Pode ir.
E quando eu ouvi me chamarem assim pela primeira vez, sorri, de uma satisfação estranha, "me reconheceram, me descobriram". E tantas vezes eu quis romantizar as histórias e quando alguém me dizia, "não, você nunca amou ninguém", eu simplesmente emudecia. E se no caminho tiver dez homens, é pro cabeludo de havainas, tocando violão, que eu vou olhar. Sim, os vagabundos tem um tipo de imã qualquer. Depois, vou olhar todos os outros. Eu sempre ouvi, desde muito cedo, "tome cuidado com os homens, eles vão querer se divertir com você". Tudo que eu conseguia pensar era se eu ia me divertir também. - E se eu me divirto junto, ainda estou sendo usada? - Sim, porque você vai querer compromisso e o homem não. - Eu vou querer compromisso? - Claro, toda mulher quer! Deviam dizer, "toda mulher DEVE querer", seria mais honesto. - E quando ele não liga no dia seguinte, você não fica chateada? - Fico. Se era bom de cama eu fico. Afinal, se acertar com alguém no sexo não é tão fácil assim como gritam aos quatro ventos. - Então se você quer ver ele de novo é porque está apaixonada. - Hum... acho que não, eu mal conheço o cara, e na real ele não é tão legal quanto imaginei. - Então por que quer ver ele de novo? - Porque a foda é maravilhosa? - Você ia querer ver novamente um homem, que você nem gosta tanto assim, só por causa disso?! Posso ouvir a palavra puta ressoando no silêncio. Eu pisco. Repetidas vezes. O que eu deveria dizer? O que eu realmente diria? - Um relacionamento é muito mais que isso! - Eu sei, mas não tô pensando em RELACIONAMENTO ainda, só... Eu devia me manter calada mais vezes. Porque as mulheres são puritanas e ingênuas eu não devo me confessar. Por isso prefiro quando me descobrem. Porque nem mesmo eu posso admitir. Todas as desculpas são louváveis, "você está ferida/amargurada/desiludida/enganando a si mesma". Diga qualquer coisa, seja uma triste solitária atrás do amor, incompleta, em busca do homem perfeito, diga qualquer coisa, qualquer coisa, só não confesse que é uma cretina! Que você quer viver um grande amor só depois de ter experimentados todos os lindos homens que puder; que prefere quando eles se mantém calados e muito ativos; que não importa quantos livros ele leu ou o quão articulado ele é, contanto que seja alto e tenha um corpo bem definido; que qualquer informação sobre ele passa a ser secundária quando você vê o sorriso largo e a pele cor de cuia; que apesar das preferências, sempre quer provar de todos os tipos; que cada novo olhar te faz sentir mais viva; que você prefere estar exausta depois de uma noite incrível a receber mensagens fofas no celular; que no fundo não importa o que ele pensa sobre você, contanto que saiba usar bem a língua; que a obediência dele na cama vale mais que qualquer promessa de reencontro; que alguns homens quando te tocam produzem instantaneamente um foco de calor tão intenso, que os imediatismos dos filmes pornôs passam a fazer todo sentido. Ultraje. Heresia. Repita como um mantra: sou uma mulher solitária em busca do verdadeiro amor. Qualquer coisa é admitida, os homens e mulheres podem suportar qualquer triste e humilhante história da sua parte, apenas não confesse! Milênios outorgaram a canalhice aos homens, não ouse cruzar a linha!
E eu vivo apaixonada pela ideia do amor. Tão lindo, tão sublime que me parece inalcançável. E é claro que eu quero que o verdadeiro, o derradeiro, o grande amor, chegue afinal! Contanto que venha dotado de uma energia, um magnetismo animal e um calor que me deixem zonza. Porque o coração só se alcança depois de atravessado todo o deserto.
A primeira coisa de que me lembro é do cheiro de bolinho americano, seu gosto e textura. O caminho começava com uma estrada de terra vermelha, a cerração baixa, íamos caminhando até refrescar a alma, na direção da livraria da pequena cidade. Ali, outro mundo, de conforto e cor, se abria. Deslumbrava-me tantas opções, tantos livros e revistas, sendo que um deles voltaria comigo; eu sorria. Depois, na volta para casa, o amarelo alaranjado do bolinho, explodindo em sabor e calor, como um grande sol; eu fechava os olhos e inspirava.
Deitada no berço, levantava minhas pernas pro ar; eu podia ficar horas admirando meus pés; os dedos dos pés; a sensação de um pé tocando o outro, os dedos se encontrando, a chupeta no vão dos dedos... Eu ouvia o silêncio e a solidão, enquanto meus pés me encantavam e eu perdia qualquer noção de tempo.
Lembro das noites claras e o céu forrado de estrelas, o verde vivo do extenso gramado, a sombra recortada da carreta e sua impressionante altura quando me aproximava. Da noite fria, do chão vermelho de pedra, do pequeno gato cinza malhado que eu escondi atrás do altar de Nossa Senhora, de acordar a noite com seu miado, a preocupação de que iriam expulsá-lo, machucá-lo, deixando-o a própria sorte, tão pequeno e órfão quanto eu. Essa ferida é a primeira da qual me lembro.
Os cabelos negros, num curto channel, que eu passei o resto da vida ambicionando ter novamente. Da alegria inocente de um corpo infantil e diminuto, sob a água fresca do chuveiro, do banheiro claro e arejado, das mulheres nuas, com seus grandes corpos e seios imensos, alegres porém muito vulgares, de uma sensação estranha de, de repente, sentir vergonha de mim mesma.
De dançar com os pés descalços no lustrado chão de madeira, do calor na pele quando eu passava pelo raio de sol que entrava na sala, de me imaginar num palco, a vibração dos movimentos no corpo, a saia florida rodando, a postura no último passo, o sorriso, os aplausos, a excitação; o sol nos meus cílios refletindo a luz em mil nuances, espelhando todas as vidas que eu tive e aquelas que ainda vou viver.
Lembro de me sentar na terra para colher morangos, e os comer ali mesmo, embaixo de uma laranjeira, encostada em seu tronco, olhando o mundo como uma deusa em sua divina paz.
Lembro de dividir laranjas com as amigas num dia ensolarado, da acidez e do melado da fruta, dos dedos grudando, das risadas. Da neve que caiu e eu mal vi pela janela. De andar de triciclo pelas ruas arborizadas que levavam à casa da bisavó. Do biquíni azul e amarelo com bolinhas brancas e a limonada gelada no verão. De escorregar em cima de um tecido preto, no declive do terreno. Do porão, empoeirado e atrativo. De todos os cheiros, luzes, cores e sensações. O passado se movendo tanto quanto o presente, tão distante quanto a lembrança da memória de outrem.
Ela sempre me vem com poesia, essa criança, mostrar que a realidade só é plena quando incluído todos seus sonhos e delírios.
Eu posso ver em você toda a bondade e a doçura que enternecem meu coração. A capacidade de sentir e se expandir na dor e na alegria, tornando-se mais profunda e terna. Vejo em você a coragem de prosseguir, de tentar de novo e de novo, uma vez mais.
Eu admiro sua crença no amor e sua capacidade de se doar. Sua beleza delicada, assim como seu porte altivo e sua presença marcante, me apaixonam. Me ilumino com a luz que irradia da sua alegria. Eu vejo sua essência em cada doce sorriso, em cada saudação sincera.
Seu amor profundo pela vida na terra, pela natureza e os animais me cativam. Sua força em ouvir e animar os amigos; em afirmar às crianças que um mundo melhor é possível, mesmo quando você mesma não tem mais tanta certeza; a compaixão pela criança que um dia você foi e que consegue estender a todas aquelas que cruzam seu caminho. Eu vejo em você. O poder de perdoar. De consolar a si mesma e erguer-se quando é hora de seguir.
Vejo quando a dor transpassa sua alma e você cai. Quando você se sente tão fraca a ponto de desistir. Quando a vida se torna cinza e a solidão é um silêncio aterrador. Quando o medo e o cansaço te tornam confusa e você reage com raiva. Quando você corre, porque esse é o jeito que você sabe fazer. Eu sei quem você é através de todas suas defesas.
Eu quero te acolher quando vejo seu desespero. Te aquecer com meu calor, quando o inverno da vida te torna fria e insensível. Eu quero te lembrar do meu amor por você.
Tudo bem, não precisa mudar. Quem você é, é o suficiente. Eu posso ver. Posso ver tudo daqui. Posso me ver em você, quando você permite esse encontro, seja no centro macio do coração ou nos seus olhos refletidos no espelho.
Penso, às vezes, que nunca terei paz. Meu passado me assombra. Uma cicatriz que me entrega, me delata. Jamais serei feliz
uma voz da infância me diz: ninguém nunca te quis e o pior é não conseguir duvidar dessa verdade não conseguir calar os sussurros da memória. Uma prisioneira na teia do destino formada pelas linhas das Moiras em minha mente.
Hoje faz um mês que me mudei. Eu sinto medo de um futuro ruim. Sinto saudades nem sei de quê. O mundo anda de cabeça pra baixo. Tirania, violência, corrupção, greves, protestos, homofobia, sexismo... A cidade está um caos. É provável que seja assim neste ano de Copa e Eleições. Sinto-me cansada e triste. Toda confusão lá fora reflete e alimenta minha confusão interna, e vice e versa. Na verdade, eu andava muito, muito feliz, capaz de enxergar na vida, na minha vida uma beleza ofuscante, arrebatadora! Mas tudo pra mim acontece muito rápido. As coisas mudam velozmente e ultimamente eu tenho tentado curtir os acontecimentos um pouco mais, mas tudo ainda acontece muito rápido. E eu espero que seja assim. E quando não é, sinto minha esperança se esvaindo, atrás de uma paciência que há muito já foi embora.
Eu mal consigo esperar que tudo aconteça. Uma fome que parcamente esconde meu medo de não vivenciar essa vida de forma suficiente. Temo não conseguir caminhar, ficar parada no caminho, então saio em disparada. Percebo minha respiração acelerando, tudo vai passando como um borrão, vou perdendo as forças, sem conseguir lembrar pra onde estou indo, sem enxergar direito onde vou. Tenho informações suficientes pra saber que eu deveria diminuir o passo; eu devia controlar meu impulso louco de correr e correr, buscando (às vezes fugindo de) uma saída. Mas ninguém pode correr sempre. Talvez o cara do Forrest Gump.
Não acredito que correr seja uma boa solução. Mas é a que eu conheço. E que em muitas vezes salvou minha alma ferida. Eu quero aprender coisas novas, quero cuidar de mim mesma, poder olhar minhas escolhas com atenção antes que a vida me obrigue a isso. Mas velhos hábitos são difíceis de mudar. Além de perseverança, eles levam tempo. Todo o tempo que me angustio em perder. E quanto, quanto tempo mais leva pra curar tudo? Quanto tempo mais pra ser uma boa pessoa? Quanto tempo até aprender a caminhar e apreciar a paisagem? Quanto tempo mais até eu me amar? Quanto tempo eu ainda tenho? Dá tempo?