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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

terça-feira, 21 de maio de 2013

A ponto de viver


- Ah, mas eu não acredito que você seja assim tão pessimista, tão descrente da vida!...

- Da vida não. Acho a vida linda. Já achei, já achei que o problema era esse... – apontei pensativa, e dizendo mais para mim mesma, completei – já achei, mas descobri que o problema era outro.

Terminei olhando pros lados. Não sabia bem se queria continuar aquela conversa.

- Então o problema é qual? - perguntou-me honesto, olhando nos olhos.

Sabia que estava genuinamente interessado na conversa. Mas o por quê era o mistério. Provavelmente estava interessado em mim, ou então, parecia divertido conversar com uma mulher excêntrica. Duvido que ele realmente estivesse se importando com a resposta. Ainda assim respondi, depois de um curto suspiro.

- Covardia. A gente não quer se arriscar a ponto de viver. A gente deseja uma vida, mas não quer correr o risco de vivenciá-la. E pra não ser doloroso demais, pra não ter que admitir, quando alguém tem coragem de sair do esquema, é só marca-lo de louco. É só pressioná-lo, chama-lo de incoerente, excluí-lo. Somos uns hipócritas de merda. A gente diz que quer viver, mas se alguém tenta, a gente não suporta, a gente precisa trazê-lo de volta à razão.

Não sei o que ele tinha achado da resposta. Sua expressão facial continuava a mesma. Com o olhar vago, continuei.

- Um dia vou escrever um livro e vou dizer ali tudo, sem medo de que me internem por isso. Vou poder falar tudo o que não digo, e vai ter um homem como você pra me ouvir, e como a história é minha, ele vai até me entender.




quarta-feira, 8 de maio de 2013

Feras


Penso que os homens realmente sofrem. Fora o fato de ser feminista, e de ter consciência de todas as crueldades que os homens são capazes de impor às mulheres, crueldades essas que não tem nenhuma desculpa ou justificativas válidas, cada vez mais percebo que os homens também sentem; e além disso: eles sofrem.

Muito se diz sobre as pressões sociais feitas a eles: que devem sustentar economicamente a família e/ou então ter um elevado nível socioeconômico; que devem ser garanhões e sempre contar vantagens sexuais; que devem ser “machos” e aguentar no osso do peito as mais adversas situações. 

Ok, concordo que essas são situações que podem, em certo grau, serem muito tolhedoras e repressivas. Porém, a mesma regra que vale para nós, vale para eles, nesse ponto de vista. A sociedade nos cobra muito mais, e ainda assim, mulheres que procuram conhecer a si mesmas e que, dentro de certa margem de erro, se garantem (ou seja, defendem seu ponto de vista e sabem o que querem e o que não querem) tomam atitudes no seu dia a dia que vai na direção contrária dessas cobranças, que batem de frente com os limites que ainda são impostos às mulheres por puro sexismo.

Lutamos diariamente, nos pequenos detalhes, para conquistarmos maior liberdade e mantermos aquelas parcamente alcançadas. Por que com os homens seria diferente? Ora, se as pressões sociais incomodam, à luta companheiros! Vamos nadar contra a corrente se isso nos fizer seres mais plenos e felizes! Que os homens mudem de atitude, procurem se investigar e descubram quais dessas cobranças realmente fazem sentido, quais delas querem manter em suas vidas. 

E da mesma forma, que muitas de nós temos que lidar com o machismo e o recalque de outras mulheres quando tomamos atitudes “inovadoras”, eles também, que saibam se defender dos ataques de outros homens (ainda presos ao conceito de “macho dominante e insensível”), tanto nas piadinhas vexatórias quanto nas acusações mais veementes. Será que os homens, tão decididos, objetivos e inflexíveis, não conseguem sequer defender uma opinião própria diante dos demais? Soa, no mínimo, estranho.

Portanto, acho que essas pressões sociais, possivelmente os fazem sofrer sim, mas a saída é fazer a mudança por si mesmo e disseminar, pelo exemplo, novas atitudes e conceitos.

Agora (ao que interessa), acho que os homens sofrem mesmo é com nossa feminilidade. É difícil pensar em algo que os deixe mais confusos do que nossa doçura. Sei que essa menção pode levantar uma série de questões feministas, mas vamos mantê-las em suspenso, pelo menos por enquanto.

Acredito que muitos dos ataques sociais às mulheres venham exatamente daí. E não, isso não é uma justificativa para tal. Ainda assim, essa me parece ser a causa principal. Para os homens é difícil entender como podemos ser tão cúmplices umas das outras, como podemos ter relações tão estreitas entre nós, sem que isso necessariamente implique homossexualismo, ou a perda do individualismo. Daí, vem então, uma disseminação cruel de ideias sobre a falsa amizade entre mulheres e suas competições estéticas. É claro, que isso pode existir entre as mulheres, tanto quanto pode existir entre os homens! Mas de longe, não é a regra!

As mulheres sabem ser solidárias umas com as outras, de forma tal incompreensível aos homens que é necessário, para alguns, pensarem que não estamos contando toda a história, que certamente estamos escondendo algo, porque afinal, não pode ser assim, não podemos ter tamanha afinidade umas com as outras! Deve ser tão doloroso, que eles precisam criar falsas concepções para continuarem vivendo suas vidas em confortáveis (e ilusórias) certezas.

Da mesma forma, quando nos revestimos de delicadezas, ou nos despimos de toda a couraça que a luta por nossos direitos exige, eles simplesmente se perdem. Alguns, se rendem, viram cavalheiros quase perfeitos e ficam, mesmo que temporariamente, "ao seu dispor". Outros, se mostram meninos inexperientes e inseguros (algumas vezes, meio bobocas), que não sabem o que falar ou fazer;  e isso independe da idade. 

Infelizmente, uma parcela dos homens-macho, reagem da única forma primitiva que desenvolveram: violentamente. A sutileza feminina é tão dolorosa para esses seres medievais, que eles fazem tudo que seu limitado autoconhecimento permite: atacar; verbalmente, fisicamente, sexualmente e hierarquicamente. Para eles, é preciso diminuir a mulher de alguma forma, já que não entendem como elas podem ser tão capazes e poderosas sendo de uma diferente natureza.

Tão triste quanto, é saber que poucos se conhecem o suficiente para agirem naturalmente diante de nossa face mais yin. Mesmo esses, devem sofrer sua parcela diante de nossas graciosidades. Nós mesmas, muitas vezes tão distantes da feminilidade quanto alguns homens, sofremos diante da força esmagadora que tem as atitudes delicadas.

Não quero dizer com isso que as mulheres devam ser sempre assim. Considero que conviver de forma mais tolerante, amorosa e amigavelmente com os demais seres vivos, seja o que de forma geral, nosso mundo mais precise. De pessoas, homens e mulheres, mais dispostos a compartilhar, mais abertos a ouvir e entender, mais empáticos. A meu ver, o mundo já está passando por essa mudança de energia sutil, não tão aparente e visível nos primeiros momentos, mas igualmente avassaladora; modificando as bases estruturais tão suavemente, que para os desavisados a transformação se dará num “de repente”. De qualquer forma, esse é um assunto bastante extenso, que abre muito mais conversas, e do qual não irei me deter.

Perceber essas “dores” masculinas, me permite ser também mais honesta com eles, e comigo mesma. Saber e ver, que também eles, se sentem inseguros, amedrontados e confusos, tira um peso tremendo das minhas costas. Não é mais preciso se sentir todo tempo vítima de seres sem coração, nem é preciso manter a todo tempo guarda contra os “bandidos”. Apesar de não serem príncipes (como nós também não somos princesas), muitos renegam o papel de fera e assumem de cara limpa os ricos personagens que de fato são.  
Melhor pra nós. Melhor pra eles. Melhor pra todos. 








sábado, 4 de maio de 2013

Diabo do Amor

Há duas semanas que eu penava em ler um livrinho fino. Quem diria!
Escolhi um lugar calmo, ao ar livre; um cantinho perto da saída dos fundos do Instituto; um bom lugar. Instalei-me confortavelmente, e me resignei a ler o livro, sem me levar por distrações!

Passou-se um tempo de sucesso na tarefa. Então ouvi a porta abrir. Seja lá quem tivesse saído, devia ter ficado parado, observando-me. Eu podia sentir, alguém me olhava intensamente! Decidi que manteria os olhos no pequeno livro, embora minha leitura já estivesse prejudicada. Comecei a mover os pés, inquieta com a insistência do observador. Eu estava decidida: não iria olhar! Nisso minha mente teve um lapso de calmaria e por ela passou uma imagem fugaz, seguida de um rápido pensamento: não seria muito louco se meu observador fosse ele?
Fosse quem fosse, finalmente desistiu e com passos rápidos se afastou.

O livro caiu no meu colo e minha respiração parou alguns segundos quando ergui os olhos e o vi se afastando. Era ele! Decididamente, minha leitura foi comprometida!
Não era ilusão afinal, de fato eu vi a cena toda com minha visão sutil! Era ele que me observava tão fortemente, tão calorosamente; era ele que esperava minha permissão e iniciativa para a conversa, aproximação talvez...

Posso sentir o olhar dele me queimando, me perscrutando... então eu sinto medo do que ele pode ver.
Ardente, um prazer quase doloroso. Meu corpo todo se dilata num desejo silencioso. Como eu quero esse homem! Minha desconcentração tem nome. Nome de anjo, mas ele é um diabo do amor. 
Quando me olha de canto, tudo que eu posso é ser sua.
Eu só quero esse olhar, me queimando, mais e mais! Seus olhos me fitam em sonhos e não posso mais conter ou fingir.
Quando me olha de cima, tudo que eu quero é me submeter.
Quando seus olhos brilham maliciosamente, posso sentir o fogo lambendo minha pele.
Que loucura, meu deus, que loucura!

Todo tempo que neguei essa atração arrebatadora, deu em nada.
Mantive a mente silenciosa, enquanto os acontecimentos me aproximavam, me induziam. Até pareciam golpes de sorte. Ou de azar.

Continuarei deixando que os acontecimentos me auxiliem, me surpreendam; deixarei meus sentimentos expostos; disponível ficarei ao fogo. Que ele me consuma, me devore.
Inteira.




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Dezessete Anos


O dia era ameno, de uma brisa suave. Estávamos sentados no banco de pedra, num recanto quase desapercebido, entre plantas e flores. Ele permanecia com seu ar tranquilo, jovial. Um menino. O rosto tão claro, os olhos limpos, inocentes. E por mais que me falasse de seu pessimismo, seu doce sorriso o enganava. Tão encantador!... Um menino, apenas um menino! O que eu estava pensando?

- Por que está tão triste? - ele perguntou suavemente, sempre tão atento...

- Você é tão jovem! Tão novo! – Coloquei as mãos sobre a boca, como em silenciosa oração. – Quando eu tinha 17 anos... – Um profundo e curto suspiro me interrompeu.

Eu sacudi negativamente a cabeça e virei o rosto, respirando, tentando manter o equilíbrio sobre mim mesma, mas quanto mais esforço fazia, minhas inspirações e expirações mergulhavam-me em memórias. Tantos sonhos, tantas esperanças eu tinha aos 17 anos! Tanta coisa perdida... O tempo agora passa impiedoso e eu já não espero grandes coisas. Pensar que talvez eu esteja ainda mais perto do fim do que se possa imaginar. Provavelmente doente. Mas eu nem pareço tão mal. Na verdade, me sinto bem fisicamente, como há muito não me sentia. Estranha vida.

Engulo todo o choro. Sinto o aperto na garganta se tornar tolerável. Já posso forçar um meigo sorriso. Sei que de alguma forma ele se preocupa e que quando olha nos meus olhos pode me ver. Sabe que estou triste, mas é maduro o suficiente para respeitar a minha dor, minhas histórias e segredos. E é justamente isso que me arrebata, sua discrição. Seus pequenos gestos de gentileza lembram um verdadeiro gentleman, normalmente estranhos a um menino. Sinto-me tão a vontade do seu lado! Eu poderia amá-lo. Posso ver seu corpo suado, à meia-luz, enquanto descanso no seu peito; ofegantes, satisfeitos, enternecidos...

Eu poderia amá-lo, certamente. Mas sei que é somente um menino, ainda crente da vida e do amor. Não teria suportes para sustentar uma forte paixão, nem suas dores. Não suportaria meus dias sombrios. Seria envenenado por minha tristeza. Não. Tenho por ele imenso carinho. Não serei eu que o farei um homem.