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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

sábado, 10 de maio de 2014

Canalha

E quando eu ouvi me chamarem assim pela primeira vez, sorri, de uma satisfação estranha, "me reconheceram, me descobriram".

E tantas vezes eu quis romantizar as histórias e quando alguém me dizia, "não, você nunca amou ninguém", eu simplesmente emudecia.

E se no caminho tiver dez homens, é pro cabeludo de havainas, tocando violão, que eu vou olhar. Sim, os vagabundos tem um tipo de imã qualquer.
Depois, vou olhar todos os outros.


Eu sempre ouvi, desde muito cedo, "tome cuidado com os homens, eles vão querer se divertir com você". Tudo que eu conseguia pensar era se eu ia me divertir também.

- E se eu me divirto junto, ainda estou sendo usada?
- Sim, porque você vai querer compromisso e o homem não.
- Eu vou querer compromisso?
- Claro, toda mulher quer!
Deviam dizer, "toda mulher DEVE querer", seria mais honesto.

- E quando ele não liga no dia seguinte, você não fica chateada?
- Fico. Se era bom de cama eu fico.
Afinal, se acertar com alguém no sexo não é tão fácil assim como gritam aos quatro ventos.
- Então se você quer ver ele de novo é porque está apaixonada.
- Hum... acho que não, eu mal conheço o cara, e na real ele não é tão legal quanto imaginei.
- Então por que quer ver ele de novo?
- Porque a foda é maravilhosa?
- Você ia querer ver novamente um homem, que você nem gosta tanto assim, só por causa disso?!
Posso ouvir a palavra puta ressoando no silêncio. Eu pisco. Repetidas vezes. O que eu deveria dizer? O que eu realmente diria?
- Um relacionamento é muito mais que isso!
- Eu sei, mas não tô pensando em RELACIONAMENTO ainda, só...
Eu devia me manter calada mais vezes.

Porque as mulheres são puritanas e ingênuas eu não devo me confessar. Por isso prefiro quando me descobrem. Porque nem mesmo eu posso admitir. Todas as desculpas são louváveis, "você está ferida/amargurada/desiludida/enganando a si mesma". Diga qualquer coisa, seja uma triste solitária atrás do amor, incompleta, em busca do homem perfeito, diga qualquer coisa, qualquer coisa, só não confesse que é uma cretina! Que você quer viver um grande amor só depois de ter experimentados todos os lindos homens que puder; que prefere quando eles se mantém calados e muito ativos; que não importa quantos livros ele leu ou o quão articulado ele é, contanto que seja alto e tenha um corpo bem definido; que qualquer informação sobre ele passa a ser secundária quando você vê o sorriso largo e a pele cor de cuia; que apesar das preferências, sempre quer provar de todos os tipos; que cada novo olhar te faz sentir mais viva; que você prefere estar exausta depois de uma noite incrível a receber mensagens fofas no celular; que no fundo não importa o que ele pensa sobre você, contanto que saiba usar bem a língua; que a obediência dele na cama vale mais que qualquer promessa de reencontro; que alguns homens quando te tocam produzem instantaneamente um foco de calor tão intenso, que os imediatismos dos filmes pornôs passam a fazer todo sentido. Ultraje. Heresia. Repita como um mantra: sou uma mulher solitária em busca do verdadeiro amor. Qualquer coisa é admitida, os homens e mulheres podem suportar qualquer triste e humilhante história da sua parte, apenas não confesse! Milênios outorgaram a canalhice aos homens, não ouse cruzar a linha!

E eu vivo apaixonada pela ideia do amor. Tão lindo, tão sublime que me parece inalcançável.
E é claro que eu quero que o verdadeiro, o derradeiro, o grande amor, chegue afinal! Contanto que venha dotado de uma energia, um magnetismo animal e um calor que me deixem zonza.
Porque o coração só se alcança depois de atravessado todo o deserto.









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