Postagem em destaque

Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

domingo, 18 de maio de 2014

A Beleza do Fim

Lembro do sangue
escorrendo pelos meus braços.
As gotas vertendo da pele branca
deslizando quentes
grandes pérolas vermelhas
lembrando que em mim
ainda existia vida.

Lembro dos tênis manchados com meu precioso sangue. Dos longos dias que se seguiram calçando aqueles tênis, do quanto as manchas escuras pareciam apropriadas, parecia que elas sempre tinham estado ali. Todo dia elas me lembravam da dor característica das lâminas rasgando minha carne, agoniante, como o som de unhas riscando um quadro negro, me preenchendo de um alívio tenebroso no final. Eu fechava os olhos esperando pelo fim. Valia a pena, eu pensava. A tristeza calmante que me invadia valia qualquer corte, eu podia até dormir depois. E a dor que permanecia, nos dias seguintes, eram paliativos, pequenas doses calmantes que me mantinham tranquila. Quanto mais fundo o corte, quanto maior a dor, mais tempo, eu sabia, perdurava a paz. Ninguém percebia, ninguém nunca percebeu. Ou quase ninguém.

Lembro da indiferença que me permitiu sobreviver, enquanto calava meu desespero. Nada podia me afetar. Nada nem ninguém podia chegar tão perto. Eu estava reclusa, eu não era deste mundo, distante como uma estrela fria. Eu não podia me importar, o vácuo silencioso do universo me consumia, eu assistia a perfeita dança do caos, eu estava tão, tão longe... eu mal conseguia enxergar. Distinguia a lua, e antes que meu desespero retornasse, ela me prometia paz eterna. Sentia sua etérea atmosfera, o conforto dos seus gelados braços, enquanto ela vertia em minhas feridas seu bálsamo prateado, e eu entrava em um lindo sonho recebendo um erótico e seco beijo da morte.

E se a fraqueza era visível, eu me alegrava por estar mais leve, mais perto do meu lindo sonho. Não havia calor capaz de me alcançar, eu estava abrigada, perdida num imenso castelo de gelo. Eu nem imaginava que ainda tinha um coração. E quando eu tingia de vermelho toda aquela brancura, só conseguia ver a incrível beleza do contraste, a beleza triste da desesperança, a doçura da entrega... eu estava obcecada pela beleza do fim.

Vivia embriagada pelas visões geladas, pela solidão permissiva, pela fuga. Nada me interessava nesse mundo, além da possibilidade de fugir. Nada valia mais do que poder dizer adeus. As fugazes alegrias passavam por mim como uma brisa. Nada podia, nem precisava ficar; logo, seria eu que iria embora. Não era preciso comer, ou cuidar da saúde, ou manter relações, ou ter dinheiro; só uma coisa precisava dar certo, só uma coisa...

Eu seria como um vento triste que passou levantando algumas folhas. Eu seria um dia cinza assistido sobre a fria areia de uma praia vazia. Eu seria uma noite estrelada registrada em minha própria memória eterna. Nada, nem ninguém, podia me trazer de volta.

A loucura me içou com braços firmes e quentes, ainda que eu não pudesse ver; me manteve seguramente iludida, enquanto as intermináveis tempestades faziam todo o barco ranger. Delirante, eu sonhava acordada com a mortalidade; debaixo de uma chuva torrencial, ela já fazia de tudo para me manter aquecida, para que a circulação vital fosse preservada durante o tempo todo que fosse preciso.
E apesar de toda sua possessividade; apesar de manter-me abraçada quando já não era mais necessário; apesar de ter visto toda fúria devastadora nos seus olhos assim que acordei; ainda assim, só posso agradecê-la. A toda força e resistência que seu exemplo me ensinou. Àquela parte louca e obscura de mim mesma, eu agradeço todos os dias de minha vida que tive deste então. À negra face, assustadoramente indestrutível, que amparou e permitiu a sobrevivência de todas as outras, a minha eterna gratidão.
Não é preciso que se esconda, você é livre, já sei onde te encontrar. Pode ir.









sábado, 10 de maio de 2014

Canalha

E quando eu ouvi me chamarem assim pela primeira vez, sorri, de uma satisfação estranha, "me reconheceram, me descobriram".

E tantas vezes eu quis romantizar as histórias e quando alguém me dizia, "não, você nunca amou ninguém", eu simplesmente emudecia.

E se no caminho tiver dez homens, é pro cabeludo de havainas, tocando violão, que eu vou olhar. Sim, os vagabundos tem um tipo de imã qualquer.
Depois, vou olhar todos os outros.


Eu sempre ouvi, desde muito cedo, "tome cuidado com os homens, eles vão querer se divertir com você". Tudo que eu conseguia pensar era se eu ia me divertir também.

- E se eu me divirto junto, ainda estou sendo usada?
- Sim, porque você vai querer compromisso e o homem não.
- Eu vou querer compromisso?
- Claro, toda mulher quer!
Deviam dizer, "toda mulher DEVE querer", seria mais honesto.

- E quando ele não liga no dia seguinte, você não fica chateada?
- Fico. Se era bom de cama eu fico.
Afinal, se acertar com alguém no sexo não é tão fácil assim como gritam aos quatro ventos.
- Então se você quer ver ele de novo é porque está apaixonada.
- Hum... acho que não, eu mal conheço o cara, e na real ele não é tão legal quanto imaginei.
- Então por que quer ver ele de novo?
- Porque a foda é maravilhosa?
- Você ia querer ver novamente um homem, que você nem gosta tanto assim, só por causa disso?!
Posso ouvir a palavra puta ressoando no silêncio. Eu pisco. Repetidas vezes. O que eu deveria dizer? O que eu realmente diria?
- Um relacionamento é muito mais que isso!
- Eu sei, mas não tô pensando em RELACIONAMENTO ainda, só...
Eu devia me manter calada mais vezes.

Porque as mulheres são puritanas e ingênuas eu não devo me confessar. Por isso prefiro quando me descobrem. Porque nem mesmo eu posso admitir. Todas as desculpas são louváveis, "você está ferida/amargurada/desiludida/enganando a si mesma". Diga qualquer coisa, seja uma triste solitária atrás do amor, incompleta, em busca do homem perfeito, diga qualquer coisa, qualquer coisa, só não confesse que é uma cretina! Que você quer viver um grande amor só depois de ter experimentados todos os lindos homens que puder; que prefere quando eles se mantém calados e muito ativos; que não importa quantos livros ele leu ou o quão articulado ele é, contanto que seja alto e tenha um corpo bem definido; que qualquer informação sobre ele passa a ser secundária quando você vê o sorriso largo e a pele cor de cuia; que apesar das preferências, sempre quer provar de todos os tipos; que cada novo olhar te faz sentir mais viva; que você prefere estar exausta depois de uma noite incrível a receber mensagens fofas no celular; que no fundo não importa o que ele pensa sobre você, contanto que saiba usar bem a língua; que a obediência dele na cama vale mais que qualquer promessa de reencontro; que alguns homens quando te tocam produzem instantaneamente um foco de calor tão intenso, que os imediatismos dos filmes pornôs passam a fazer todo sentido. Ultraje. Heresia. Repita como um mantra: sou uma mulher solitária em busca do verdadeiro amor. Qualquer coisa é admitida, os homens e mulheres podem suportar qualquer triste e humilhante história da sua parte, apenas não confesse! Milênios outorgaram a canalhice aos homens, não ouse cruzar a linha!

E eu vivo apaixonada pela ideia do amor. Tão lindo, tão sublime que me parece inalcançável.
E é claro que eu quero que o verdadeiro, o derradeiro, o grande amor, chegue afinal! Contanto que venha dotado de uma energia, um magnetismo animal e um calor que me deixem zonza.
Porque o coração só se alcança depois de atravessado todo o deserto.