Sim, é o mecanismo de segurança, é a capacidade de adaptação, é sobrevivência. Mas a vida, nos seus inevitáveis ciclos, retoma aquilo que escondemos. O que é feio, o que dói, o que foi calado, se reflete, individualmente em algum descendente familiar, ou socialmente em uma nova geração, que se mutila e não vê sentido na existência teatral que levamos.
Quando nos calamos outros falam por nós. E muitos jovens expressam na pele que sobre-viver não é o suficiente. Nossa negação não resolveu a falta de amor, de cuidado, de empatia, de relacionamentos. Só adiou a outra geração que fala mais alto. O que me leva a pensar que, enquanto nos fizermos de surdos, cada geração gritará mais.
Desde que me lembro estar viva, me lembro de uma boa chinelada. A última vez que apanhei tinha dezessete anos. Meus parentes diziam "que eu precisava mudar 80% para ser uma pessoa aceitável". "Tudo daria certo se eu não fosse eu mesma". "Estava ocupando o lugar de outra pessoa". "Ninguém me quis, por isso não fui criada pelos meus pais". Tentei calar todas as dores e para isso mutilei meu corpo e minha alma.
No primeiro relacionamento estável que tive fui abusada sexualmente. Não sabia me relacionar e ainda estou aprendendo.
Procurei por ajuda psicológica e ouvi que eu não tinha "força de vontade". As sessões só começaram a funcionar quando aprendi a dizer o que os profissionais queriam ouvir.
Em terapias alternativas fui reconhecida como a vitimista. Cansada, reaprendi a silenciar.
Há poucos anos fui informada de quem é meu pai. Ainda estou em dúvida se levo o processo de paternidade adiante. Tenho medo.
Apesar de ter aprendido muito sobre quem sou, sobre os mecanismos da vida, sobre psicologia e espiritualidade; apesar de me sentir mais mestra de mim mesma a cada dia e continuar aprendendo, tenho medo de falar. Medo de opinar, de me expôr. Tenho tido medo até de escrever, minha grande paixão, o que tem evitado a produção de novos textos. Tenho medo dos outros, medo de estender a mão.
Alguns textos e notícias que circulam pela internet, alertam os pais para vasculharem as coisas de seus filhos... Quantos pais se perguntarão honestamente em como criaram seus filhos a ponto de não estabelecerem um vínculo com eles no decorrer de todos esses 8, 9, 12, 15, 16 anos, para ser necessário "vasculhar" o que eles estão fazendo?
Quantos adultos se darão conta das próprias dores silenciadas que os impede de estabelecer ligações saudáveis com os filhos, sobrinhos, companheiro(a), alunos, colegas, vizinhos...?
Os jovens estão doentes... mas não é de agora. Os adultos estão doentes, e também não é novidade... A solução não é rápida nem fácil. Mas existe. Requer coragem e paciência. É preciso reintegrar a dor e a tristeza como parte natural da vida, desconfigurar a sombra. Se nós não as escondemos, nem as patologizamos, elas seguem seu fluxo, e passam. Como tudo na vida.
E assim não será preciso "força de vontade" para sorrir, nem pílulas para se manter estável, nem best sellers de como ser otimista o tempo inteiro. A alegria virá, sinceramente no seu devido tempo. E passará, como tudo na vida.
O que nos segura nessa dança de ciclos são as conexões que estabelecemos com as pessoas, os animais, o ambiente que nos circula e consigo mesmo.
Essas conexões formam a rede que pode nos manter seguros, nutridos e aquecidos durante as mudanças inevitáveis. A criação dessa rede leva tempo, exige humildade e cuidado. Olhar o outro e a si mesmo com mais respeito e compaixão. Permitir que a felicidade de uma vida plena se infiltre nos momentos bons e ruins, de todas as nossas relações.
O que falta nas crianças e adolescentes de hoje em dia, é o mesmo que falta aos adultos, a simplicidade de existir e a prática de amar.
Imagem: Gazeta do Povo Curitiba.
Disponível em : <http://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/sobe-para-oito-numero-de-casos-envolvendo-jogo-baleia-azul-em-curitiba-e1x2lphwh9qzjc01eis3vebat>. Acesso em abr. 2017.
