Deitada no berço, levantava minhas pernas pro ar; eu podia ficar horas admirando meus pés; os dedos dos pés; a sensação de um pé tocando o outro, os dedos se encontrando, a chupeta no vão dos dedos... Eu ouvia o silêncio e a solidão, enquanto meus pés me encantavam e eu perdia qualquer noção de tempo.
Lembro das noites claras e o céu forrado de estrelas, o verde vivo do extenso gramado, a sombra recortada da carreta e sua impressionante altura quando me aproximava. Da noite fria, do chão vermelho de pedra, do pequeno gato cinza malhado que eu escondi atrás do altar de Nossa Senhora, de acordar a noite com seu miado, a preocupação de que iriam expulsá-lo, machucá-lo, deixando-o a própria sorte, tão pequeno e órfão quanto eu. Essa ferida é a primeira da qual me lembro.
Os cabelos negros, num curto channel, que eu passei o resto da vida ambicionando ter novamente. Da alegria inocente de um corpo infantil e diminuto, sob a água fresca do chuveiro, do banheiro claro e arejado, das mulheres nuas, com seus grandes corpos e seios imensos, alegres porém muito vulgares, de uma sensação estranha de, de repente, sentir vergonha de mim mesma.
De dançar com os pés descalços no lustrado chão de madeira, do calor na pele quando eu passava pelo raio de sol que entrava na sala, de me imaginar num palco, a vibração dos movimentos no corpo, a saia florida rodando, a postura no último passo, o sorriso, os aplausos, a excitação; o sol nos meus cílios refletindo a luz em mil nuances, espelhando todas as vidas que eu tive e aquelas que ainda vou viver.
Lembro de me sentar na terra para colher morangos, e os comer ali mesmo, embaixo de uma laranjeira, encostada em seu tronco, olhando o mundo como uma deusa em sua divina paz.
Lembro de dividir laranjas com as amigas num dia ensolarado, da acidez e do melado da fruta, dos dedos grudando, das risadas. Da neve que caiu e eu mal vi pela janela. De andar de triciclo pelas ruas arborizadas que levavam à casa da bisavó. Do biquíni azul e amarelo com bolinhas brancas e a limonada gelada no verão. De escorregar em cima de um tecido preto, no declive do terreno. Do porão, empoeirado e atrativo. De todos os cheiros, luzes, cores e sensações. O passado se movendo tanto quanto o presente, tão distante quanto a lembrança da memória de outrem.
Ela sempre me vem com poesia, essa criança, mostrar que a realidade só é plena quando incluído todos seus sonhos e delírios.
