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terça-feira, 12 de agosto de 2003

Gaivota

O primeiro som do bando avisa uma nova manhã. O sol radiante fazia meus olhos doerem ao olhar o mar. As vozes dos pescadores e barulhos vindo do porto indicavam um dia de intensa atividade. Hoje eu treinaria o voo de lado, mas nem todas gaivotas procuravam se aperfeiçoar em outra área que não fosse a de brigar no porto por um pedaço podre de peixe. Se não fosse tão ridículo, seria ainda mais engraçado: um bando de gaivotas lutando por um único peixe, fazendo disso sua vida diária e acreditando que isso é o melhor que podem fazer.

Há algum tempo descobri o prazer de voar. Não simplesmente de voar por comida, mas o prazer de voar por ser livre. Descobri o quanto é bom sentir no rosto o vento bater, o quanto é bom descobrir que posso voar mais alto do que imaginei. Descobri a sensação de um rasante e o doce sabor do pôr do sol. Aprendi que não existe tempo, nem espaço para a mente, e que não existe obstáculos quando se quer algo sinceramente.

Mas o bando não quis ouvir meu chamado a um novo objetivo de vida. Caçoaram, riram, e disseram-me estar louca em pensar que existiria algo além do porto e dos peixes. E se não bastasse, na Assembléia do Bando fui punida com a exclusão. Agora estava fora do bando, e era uma gaivota que se alimentava somente do que lhe era necessário e merecido, mas não estava mal, aliás, estava bem melhor agora.

Na minha nova etapa, longe do bando, encontrei mais gaivotas que foram expulsas ou optaram por uma nova vida. Surpreendi-me ao perceber que essas gaivotas pensavam como eu, e tinham um grupo em uma praia distante. Lá aprendi muito e ensinei algumas coisas também.
Por acreditar que todos possuem o poder de mudar e aprender, voltei ao meu antigo bando para, quem sabe, ensinar novas gaivotas; e de fato consegui disseminar a verdade a mais três jovens gaivotas.

E olhando do alto o bando do qual fui excluída, pensei que poderia ficar lá, ser novamente parte do grupo, lutar mais uma vez por comida e ser fatalmente bicada por um amigo esfomeado. Mas agora sei, que o meu destino é voar cada dia mais além, em busca de um novo Sol.




* Inspirado no livro Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach.