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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Reflexões sobre a Baleia Azul

O que falta nas crianças e adolescentes de hoje em dia é uma boa chinelada. Ouço muito. Pior: penso isso às vezes. E me sinto algoz de mim mesma. Cúmplice daqueles que criaram com violência e indiferença a criança que eu fui um dia. Quando nos tornamos insensíveis à própria dor, é natural e automático que a dor do próximo não nos toque mais.

Sim, é o mecanismo de segurança, é a capacidade de adaptação, é sobrevivência. Mas a vida, nos seus inevitáveis ciclos, retoma aquilo que escondemos. O que é feio, o que dói, o que foi calado, se reflete, individualmente em algum descendente familiar, ou socialmente em uma nova geração, que se mutila e não vê sentido na existência teatral que levamos.
Quando nos calamos outros falam por nós. E muitos jovens expressam na pele que sobre-viver não é o suficiente. Nossa negação não resolveu a falta de amor, de cuidado, de empatia, de relacionamentos. Só adiou a outra geração que fala mais alto. O que me leva a pensar que, enquanto nos fizermos de surdos, cada geração gritará mais.

Desde que me lembro estar viva, me lembro de uma boa chinelada. A última vez que apanhei tinha dezessete anos. Meus parentes diziam "que eu precisava mudar 80% para ser uma pessoa aceitável". "Tudo daria certo se eu não fosse eu mesma". "Estava ocupando o lugar de outra pessoa". "Ninguém me quis, por isso não fui criada pelos meus pais". Tentei calar todas as dores e para isso mutilei meu corpo e minha alma.
No primeiro relacionamento estável que tive fui abusada sexualmente. Não sabia me relacionar e ainda estou aprendendo.
Procurei por ajuda psicológica e ouvi que eu não tinha "força de vontade". As sessões só começaram a funcionar quando aprendi a dizer o que os profissionais queriam ouvir.
Em terapias alternativas fui reconhecida como a vitimista. Cansada, reaprendi a silenciar.
Há poucos anos fui informada de quem é meu pai. Ainda estou em dúvida se levo o processo de paternidade adiante. Tenho medo.

Apesar de ter aprendido muito sobre quem sou, sobre os mecanismos da vida, sobre psicologia e espiritualidade; apesar de me sentir mais mestra de mim mesma a cada dia e continuar aprendendo, tenho medo de falar. Medo de opinar, de me expôr. Tenho tido medo até de escrever, minha grande paixão, o que tem evitado a produção de novos textos. Tenho medo dos outros, medo de estender a mão.

Alguns textos e notícias que circulam pela internet, alertam os pais para vasculharem as coisas de seus filhos... Quantos pais se perguntarão honestamente em como criaram seus filhos a ponto de não estabelecerem um vínculo com eles no decorrer de todos esses 8, 9, 12, 15, 16 anos, para ser necessário "vasculhar" o que eles estão fazendo?
Quantos adultos se darão conta das próprias dores silenciadas que os impede de estabelecer ligações saudáveis com os filhos, sobrinhos, companheiro(a), alunos, colegas, vizinhos...?

Os jovens estão doentes... mas não é de agora. Os adultos estão doentes, e também não é novidade... A solução não é rápida nem fácil. Mas existe. Requer coragem e paciência. É preciso reintegrar a dor e a tristeza como parte natural da vida, desconfigurar a sombra. Se nós não as escondemos, nem as patologizamos, elas seguem seu fluxo, e passam. Como tudo na vida.
E assim não será preciso "força de vontade" para sorrir, nem pílulas para se manter estável, nem best sellers de como ser otimista o tempo inteiro. A alegria virá, sinceramente no seu devido tempo. E passará, como tudo na vida.

O que nos segura nessa dança de ciclos são as conexões que estabelecemos com as pessoas, os animais, o ambiente que nos circula e consigo mesmo.
Essas conexões formam a rede que pode nos manter seguros, nutridos e aquecidos durante as mudanças inevitáveis. A criação dessa rede leva tempo, exige humildade e cuidado. Olhar o outro e a si mesmo com mais respeito e compaixão. Permitir que a felicidade de uma vida plena se infiltre nos momentos bons e ruins, de todas as nossas relações.
O que falta nas crianças e adolescentes de hoje em dia, é o mesmo que falta aos adultos, a simplicidade de existir e a prática de amar.



Imagem: Gazeta do Povo Curitiba.
Disponível em : <http://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/sobe-para-oito-numero-de-casos-envolvendo-jogo-baleia-azul-em-curitiba-e1x2lphwh9qzjc01eis3vebat>. Acesso em abr. 2017.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Estilo: a expressão de uma vida

Muitas discussões sobre o que é ter um estilo são feitas, principalmente na juventude. Desde a escola há grupos, de crianças e adolescentes, que se unem por um interesse em comum que podem ser: a música, o esporte, ou a política. Cada grupo, de certa forma, unifica o vestuário, as gírias, comportamentos e visão de mundo, o que facilita a comunicação entre seus integrantes. Ainda assim, dentro de cada grupo, cada indivíduo expressa e entende o interesse compartilhado, de uma forma única.

Essa individualidade ocorre porque cada ser humano nasce em uma determinada época, com determinadas influências religiosas, econômicas, culturais, sociais e familiares, diferentes. E mesmo dentro do núcleo familiar, pode-se distinguir diferenças entre irmãos, por exemplo. Porque além das influências externas, cada um cria e recria durante sua existência, formas de interpretar e assimilar a realidade à sua volta, bem como administrar seus pensamentos e emoções. Assim, cada pessoa desenvolve naturalmente um estilo próprio de ser e atuar no mundo.

Pode-se somar a isso, aspirações, sonhos e desejos; os ídolos, que, em algum grau, reconhecemos aquilo que somos e quem ainda queremos nos tornar. Em cada imitação que tentamos reproduzir, expressamos toda aquela carga de informações e conhecimentos internos e externos, que nos torna únicos, e por fim, acabamos produzindo um novo resultado, recriando nosso próprio estilo, somando a ele referências.

Portanto, ter um estilo é, antes de mais nada, aceitar a si mesmo. Todos os outros aí já estão, e mesmo que se tente ser como a atriz badalada da atual novela ou o antigo astro do rock'n'roll, ou até mesmo o excelente médico (professor, dançarino...) que seu pai é ou um dia foi, não há como fugir de si mesmo.
Ter estilo é aceitar sua história, seu percurso, e reconhecer que apenas você é capaz de fazer o que faz da forma como faz. Ter estilo é ter a certeza e a tranquilidade de ser e estar no mundo.




Imagem: Clipart.
Disponível: <https://openclipart.org/detail/191620/define-tu-estilo-2>. Acessado em abr. 2017.




quarta-feira, 16 de março de 2016

Lua Cheia

Todas histórias que você ouviu sobre mim são reais.
Dei numa lavanderia, totalmente chapada.
Sim, eu só fico com quem escolho.
Achei que ser meu escolhido era grande coisa, mas pra você não parece ser... que pena amor, gostei tanto de você.
Sim, sou filha da lua, imprevisível, já sei que te disseram... era tudo verdade... renegaria meu sangue por um grande amor, mas não foi suficiente para que você esquecesse seu passado sombrio.
Também tenho um passado escuro, ele me pesa em dias frios... choro muito às vezes, mas isso passa, amor... achei que você entendesse...
Preciso da luz da lua sobre mim, a liberdade não tem preço, amor... achei que você soubesse... eu me enganei.
A lua cheia me chama, meu bem... eu te amei, eu te amo tanto, como você não consegue ver?
Um tambor bate no meu peito... você vem?
Entenda, sou filha dos astros, minha razão ainda não é bem compreendida, eu me controlo melhor com a bebida, por favor, por favor, faça minhas vontades agora, venha comigo...
Te garanto noites quentes e dias felizes, venha...
Enquanto há tempo, venha...
Não posso evitar a lua cheia...







terça-feira, 17 de novembro de 2015

Em Silêncio


No início, meu silêncio foi tarefa árdua, mas muitas vezes ele agora é meu refúgio.

Acredito que ninguém tenha ficado feliz com nenhuma das tragédias, seja em Minas Gerais, em Paris, ou mesmo da mulher que se jogou da ponte ontem aqui em Floripa.

Acontece que eu trabalho com o público, lido com as pessoas nas horas em que elas acham que não estão sendo vistas, quando grande parte delas se sente superior e no direito de falar, perguntar ou exigir o que bem entendem, por estarem lidando com um mero empregado que existe apenas para servi-las porque estão pagando.

Das últimas atitudes mais curiosas, estão:

- Um homem que chegou no meu caixa reclamando da Dilma com um amigo. Ele falava da situação econômica do país, do jeitinho brasileiro de levar vantagem. O troco era de R$0,42. Devolvi quarenta centavos, e ele me pediu os outros dois. Pedi que esperasse um minuto para que eu pegasse moedas de um centavo com a fiscal, mas ele se sentiu profundamente indignado por ter de esperar um minuto, já que eu poderia dar a ele uma moeda de cinquenta centavos. Já tinha até fechado minha gaveta, então teria que esperar pela fiscal de qualquer forma, mas nem tive tempo de explicar, o cidadão me chamou de todas as coisas e no fim me mandou a merda.

- Outro dia estava empacotando as compras de uma mulher, quando subitamente ela me olha e pergunta "Você votou na Dilma?". Fiquei pensando se devia ou não responder. "Sim". "Não acredito", ela disse indignada. "Dentre as outras opções ela me parecia a melhor", foi minha resposta final, enquanto ela terminava de esbravejar suas conclusões políticas.

- Ontem elogiei o colar de outra mulher. Era uma imagem de Nossa Senhora em prata. "Você é católica?", perguntou ela. Respondi que fui criada no catolicismo mas que não seguia mais a religião. Então ela me perguntou se eu era evangélica, respondi que não. "Mas de que religião tu é?", respondi que não sigo nenhuma religião e ela começou a rir de forma sarcástica, "Seria melhor até ser evangélica do que não ser nada".

Existem outras situações:
Como quando alguns clientes querem cada item comprado em uma sacola de plástico reforçado com outras duas sacolinhas, porque estão pagando.
Ou como os donos da casa onde estávamos alugando, que quando apareceu alguém dizendo que pagaria mais por mês nos colocaram na rua, do dia pra noite, mesmo com nosso pagamento adiantado.

Nessas horas minha lógica se perde. Onde estão todas aquelas pessoas que eu vejo nas redes sociais, nas diferentes mídias, ou mesmo falando em alto tom nas ruas e ônibus que lamentam a ganância, o desrespeito, a intolerância religiosa, a destruição ambiental?

A culpa é mesmo da Dilma, dos empresários das mineradoras, dos terroristas? Será mesmo?? Será que as grandes tragédias não refletem as pequenas formas que encontramos de espezinhar os outros seres, todos os dias, em cada canto do mundo??

Não acredito mais em vítimas, e sendo assim, nem em culpados.
Não assisto mais tv nem leio jornais. Tudo tem soado como uma grande insanidade.

Eu me recolho no silêncio. Admiro a coragem daqueles que ainda querem ser pais e mães e dos seres que ainda virão para essa terra.
Tento lembrar que a escuridão é apenas a falta de luz. Que cada um enxerga como pode. E que o sofrimento quando é demais transborda. Assim como a alegria. Acredito então que o que me resta é agir e ser coerente, íntegra e verdadeira com alegria. Na dúvida, na falta, no mais, silêncio. Apenas silêncio.







quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"Será mesmo amor?" E outros posts semelhantes...

Faz tempo que tenho mantido minhas opiniões só para mim, mas preciso dizer que já li muita coisa sobre "o que é amar", MUITA!
Achei que se pesquisasse muito eu entenderia mais sobre o assunto, que saberia identificar o que sinto ou o que vivo.
Achava mesmo que estava aprendendo alguma coisa.

No fundo esses textos só me deixavam mais confusa.
Ficava questionando a categoria dos meus sentimentos e o dos outros também, e com isso eu me perguntava o quanto realmente estava vivendo o amor, ou a paixão, etc.
Mais uma das coisas que tentamos controlar e categorizar, mas sabe, hoje leio esses textos e sei que tudo isso é lixo. Desculpa aí, mas é lixo. Nada pessoal.

O amor não segue nenhuma regra. Nenhuma.
"Ai, isso não é amor, é outra coisa"... Quem sabe?
Quem realmente pode dizer o que é ou não amor? Quem tem tanta autoridade?

O máximo que se pode fazer é dizer o que funcionou para aquela pessoa naquela situação.
E o que funciona ou não, o que você precisa entender, será aprendido na prática.
Bons textos ajudam a saber quem se é, mas nenhum te prepara para a vida "de verdade", para o dia a dia, para as horas sem glamour.

Amando eu tenho aprendido a viver um dia de cada vez, a perdoar, a observar, a silenciar, a me comunicar honestamente.
Tenho conseguido sair do meu turbilhão interno e reconhecer o que é sacrifício e comprometimento.
Eu tenho me arriscado a me descobrir nos outros e através deles.

Talvez isso continue funcionando, talvez não.
Estou consciente de que não há uma cartilha a seguir ou nomes com os quais definir.
As pessoas sentem o que sentem e deviam respeitar mais isso.

Enquanto se analisa, não se vivencia. E tempo é artigo de luxo.
Melhor usá-lo amando, seja lá o que isso for.








segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Alguma coisa mudou em mim

Alguma coisa mudou em mim.
Alguma coisa rachou e rompeu.
Nada será como antes
minha casca caiu
eu voltei do mar salgado sob o dourado pôr do sol
as feridas foram limpas
a dor me amainou
só as cicatrizes ficarão do passado
alguma coisa mudou.

As palavras saem terrivelmente verdadeiras
a guerreira apareceu
os curativos só me fazem lembrar da força deste meu templo carnal
não posso mais seguir ninguém
o derradeiro mestre surgiu
não há mais tempo para engodos
a plenitude alcançou cada momento.

O silêncio se fez morada
para que o grito se faça ouvir mais longe
as vozes não serão poupadas
ressoando em cada coração amigo
meu chamado unirá a tribo
não há mais tempo para disfarces
mostre sua singular beleza e assuma seu lugar.

Não espere pelos meu floreios
minhas gentilezas quando existem são reais
eu sorrio e amo por inteiro
não é preciso alarde
minhas lutas são bem selecionadas
contra as mil e uma faces da Deusa
não ouso desperdiçar energia
batalha boa é me reintegrar através do valoroso inimigo.

Alguma coisa mudou em mim
é ainda difícil vislumbrar os contornos sob a forma incandescente
a labareda me fez de novo após mais um longo mergulho
minha terra e meu povo me chamam e já não vacilo
sou a deusa guerreira do fogo e com o vento me aproximo.








sábado, 1 de novembro de 2014

Meu amor me chamou

No primeiro toque do tambor
Eu fui
De pés descalços
Saia longa
Perfumada
Coração apressado
Quando meu amor me chamou
Despi minha alma
E fui
No primeiro toque do tambor.




A todas minhas irmãs, mães e filhas
Por todas as nossas relações.




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Carta-Poema II

Eu me perdoo.
Por todas às vezes que eu disse que não ia
e fui.
Por todas as palavras contraditas
Por todas as ações julgadas e incompreendidas
que mais tarde eu repeti.

Eu me perdoo
pelos sonhos desfeitos
pelos sonhos trocados.
Eu me perdoo
por ser tão imaginativa
por sonhar tão docemente viver outras vidas.

Eu me perdoo
por mudar de ideia
de voz
de corpo
de postura.
Eu me perdoo
por voltar atrás.
Eu me perdoo
por abrir mão daqueles que amo
por aprender que o amor é tão fugaz.

Eu perdoo minhas mortes e renascimentos.
Perdoo meus dramas.
Minhas máscaras todas.
Perdoo minha multiversalidade.
Eu me perdoo por não ser sempre a mesma.
Eu me perdoo por não corresponder as expectativas
nem as minhas
nem as dos outros.

Eu me perdoo
por tantos amores e paixões.
Eu perdoo meus desenganos.
Minha ingenuidade.
Minhas projeções.
Minha utopia.

Eu me perdoo
pelos desejos de felicidade e amor.
Eu perdoo minhas esperanças.
Meu mau humor.
Minha intensidade.
Minha história.
Meu processo.

Perdoo meu coração
e todas as vezes em que disse a ele "não".
Eu me perdoo por sorrir e mudar.
Perdoo minha alegria
e meu eterno recomeçar.
Eu me perdoo por desistir,
selecionar.
Que no meu mundo
só cabe quem quiser ficar.




"Eu quero dizer / Agora o oposto do que eu disse antes / Eu prefiro ser / Essa metamorfose ambulante / Do que ter aquela velha opinião / Formada sobre tudo / Sobre o que é o amor / Sobre o que eu nem sei quem sou
Eu vou desdizer / Aquilo tudo que eu lhe disse antes..."




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Carta-Poema I

O que eu escolho agora é o amor maduro
Um amor que enxergue todos meus defeitos
Que reconheça toda minha força
E que ainda sinta o desejo de me envolver em seus braços.
Um homem que fique ao meu lado
Não para me ajudar, ou me proteger
Nem porque precise de mim
Mas sim, porque quer ficar.

Eu não serei compreensiva
Nem compassiva com suas vitimizações
Não vou me conter para que você possa se sentir melhor
Eu não vou me calar.
Nem irei competir, ou te subjugar
Não te jogarei a máscara do incapaz para que eu possa me sentir mais importante
Enxergarei todos seus defeitos
Todas suas atitudes irritantes
E continuarei te amando.

Meu amor e minhas cicatrizes já estavam aqui antes de você chegar
E continuarão quando você se for
Sou capaz de vivenciar intensas alegrias
E tristezas profundas.
Eu posso me manter sozinha e da mesma forma tomar minhas decisões
Vivo plenamente em minha própria companhia.
Quando te olho, sei que você é tão inteiro quanto eu
E me sinto honrada por partilharmos essa caminhada.

Sei que posso partir a qualquer momento
Se assim meu coração desejar
E que da mesma forma, você possa seguir trilhar um outro rumo
Para sua felicidade.
Cada dia que nossas escolhas coincidem em prosseguir juntos na mesma direção
É um milagre
uma sagrada e rara benção com a qual mutuamente nos presenteamos.

Estamos conscientes. Os véus cor de rosa foram rasgados. Estamos despidos de todas as formas.
E todas nossas marcas, nossas histórias, cada pedaço de corpo e alma à mostra
Aumenta o respeito, o desejo e a admiração.
Cada passo que dou em busca dos meus sonhos
Estou mais perto de você
De todo amor que eu jamais imaginei sentir
E receber.
Calorosamente
Você me leva de volta para casa
Para meu próprio coração.




"Sempre que estou sozinha com você / Você me faz sentir em casa de novo
Inteira / Jovem / Como se eu fosse divertida de novo
Mesmo distante / Eu sempre vou te amar
Mesmo eu estando longe / Eu sempre vou te amar
Qualquer palavra que eu diga / Eu sempre vou te amar
Sempre que estou sozinha com você / Você me faz sentir livre de novo
Limpa de novo
Mesmo distante / Mesmo eu estando longe / Qualquer palavra que eu diga / Eu sempre vou te amar / Porque eu te amo."

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Brotando

Será que treme de medo o broto quando saindo da terra avista a luz?
E nessa hora ele ainda pode escolher se continua crescendo ou não?
E quando sente a primeira brisa de vento, o primeiro raio de sol, ele estremece? Ele confia?

Ele continua seguindo o coração durante a travessia?




"O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar /Plantar nalgum lugar / Ressuscitar no chão / Nossa semeadura / Quem poderá fazer aquele amor morrer / Nossa caminhadura / Dura caminhada / Pela noite escura
Quem poderá fazer / Aquele amor morrer / Se o amor é como um grão / Morre, nasce trigo / Vive, morre pão."




quinta-feira, 18 de setembro de 2014

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Tabuleiro da Vida

Tenho sempre a esperança
de que vai chegar um tempo na minha vida
em que eu vou querer ter mais tempo de vida
pra viver

Isso me encanta e me apavora
E se um dia eu estiver tão envolvida com essa vida
a ponto de não querer mais ir embora?
E se então
eu for castigada com a partida?

Mas e se esse dia nunca chegar
e eu nunca me sentir plenamente aqui?
Se esse grito de saudade continuar ecoando em mim
de mim?
Se a lembrança de terras distantes continuar apertando meu coração
e eu nunca encontrá-las aqui?
Serei uma derrotada
ou simplesmente, infeliz?
E se então eu for castigada
com uma longa vida pra viver?

Temo pelo futuro
nem ele me tranquiliza
isso me cega de várias formas
E na dúvida do que ele me reserva
não vacilo
e agora mesmo me castigo.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O que meu pai me ensinou

Meu pai me ensinou que cada pessoa é única e insubstituível.
Eu aprendi a ter esperanças no futuro e que a vida é uma sequência de surpresas... nunca se sabe o que pode acontecer.

Meu pai me ensinou que a verdadeira presença está no quanto se é lembrado.
Eu aprendi que o vazio faz parte do inteiro, que cada lacuna tem sua função.

Meu pai me ensinou a usar a imaginação.
Eu aprendi a criar todos os recursos de que preciso, a me alimentar das histórias. Aprendi que eu podia ser qualquer coisa e que ele podia ser qualquer pessoa.

Meu pai me ensinou as inúmeras facetas do bom humor.
Eu aprendi a driblar os estranhos com sorrisos, me defender com escudos de sarcasmo à aproximação do perigo e a valorizar imensamente as calorosas risadas de alegria.

Meu pai me ensinou a esperar.
Eu aprendi a ser paciente e observar com cautela antes de agir ou escolher. Aprendi a ouvir minha intuição e a mergulhar com profundidade na escuridão.

Meu pai me ensinou o que significa ser forte.
Eu aprendi a ser resiliente. Descobri na morte a insuperável força da vida. Aprendi a morrer e a lutar, a morder e conquistar, a arranhar e gritar, a buscar e a sangrar. Conheci meus limites e minha fúria. Aprendi a levantar.

Meu pai me ensinou que a distância é relativa.
Eu aprendi a agradecer. Desapareceu num golpe de mestre esquentando a fornalha onde, quem sou, foi forjada.

Meu pai me deu papel, tinta e pena.
Eu aprendi a escrever. Ele me deu à vida, e desde aquele instante venho escrevendo minha melhor história.



Ao meu pai, por me brindar com sua ausência e me permitir vivenciar essa existência com tamanha intensidade.









quinta-feira, 24 de julho de 2014

Donde Estás?

Haverá nesta terra outro homem, mais paciente que tu? Que me amará, apesar do que me recuso a dar?
Tu viu meu vício, minha beleza e dor. Ensina-me a me amar.

Quando irei assumir minha arte? Minha bebida, meu cigarro? É o mundo que está errado?
Quando assumirei tudo o que me atrai, toda sujeira desse mundo que me desperta?
Quando anjo sonho em ser diabo, mas quando endemoniada nem me reconheço; rezo então para que nenhum conhecido apareça, enquanto de tanto prazer me esqueço.

Donde estás, amor? Fui eu que me escondi? De tantas máscaras, nem me suspeita?
Quando a pele sentirei em liberdade? Ainda nessa vida me permitirei?
Há sempre tantos talvez, e mais alguém de quem me esconder. De quem são os sentimentos que protejo? Por que me importa tanto esses canalhas?
Importa-me? Enoja-me essa deslealdade; a esses porcos me primo, a mim mesma me nego. Que maldição me persegue?
Chega, chega, basta de torturas!

E se quero ser essa desregrada dos meus sonhos, das minhas noites particulares, é essa sensata que me consome.
Até quando serei duas, serei mais? Seria essa minha natureza, multiversada?
Eu é que sou melindrada, que o mundo nem se espanta mais com coisa alguma! Nem me veem os olhos do mundo. E já que ninguém me vê, por que não ser eu mesma? Aquela abusada que já sou esgueirando-se pelas sombras... Donde estás, amor, para que me permitas?

Donde estás? No rosto que me nego olhar? No beijo que me recuso dar? No êxtase de loucura que não me deixo entregar? Donde estás?

E tu, que me vistes antes da chama apagar, que me dizes? Haverá outro homem que me amará?
Haverá tempo para engolir o orgulho, para assumir-me frente quem diz me adorar? Irei entender minha loucura, abraçar minha sombra, orgulhar-me desse amor verdadeiro?
O mundo não se importa, já te disse! Basta de querer ser. Seja o animal ferido que és, deixando teu rastro de morte e vida por onde passas, seja, que logo iras curar-te, logo vês. Que a tua salvação é cair. Que é preciso morrer semente para nascer árvore.

Basta de lamúria, amor. É chegada tua, minha hora. E assim que parar de tanto drama, ainda haverá tanto pra contar!
Ainda haverá tantas histórias, que tuas lágrimas, doces e amargas, se fazem rio... fluindo para o mar eu vou te encontrar, com teu chamado angustiando meu coração, vou te encontrar... meu amor, cá estás!




"Estou cansado de chorar e não amanhece / Já não sei se te maldizer ou por você rezar / Tenho medo de lhe procurar e de lhe encontrar / Onde meus amigos me dizem que você está / Há momentos em que prefiro me abrir uma fenda / E arrancar as raízes do meu sofrimento / Mas meus olhos morrem se olham nos teus / E o meu afeto, com o amanhecer, volta a lhe esperar
E por sua conta decidiu pelas festas / Pomba negra por onde, por onde você anda? / Não brinque com minha honra boêmia / Se suas carícias devem ser minhas e de ninguém mais
E embora eu te ame loucamente, não volte / Pomba Negra você é o peso do meu sofrimento / Quero ser livre para viver minha vida com quem eu queira / Deus me dá força que estou morrendo por ir buscá -la..."

terça-feira, 1 de julho de 2014

Quando?

Com 12 anos, escrevi que tudo o que eu precisava cabia numa mochila. E cada vez mais me aproximo desse ideal, cada vez mais carrego menos.

E se eu me libertar, bem sei, poucos irão se agradar. Bem sei quantas decepções causarei, mas eu tenho um sonho de liberdade que grita por se tornar real.

Sei bem o que esperam de mim, responsabilidade sempre foi meu segundo nome... Se pudessem ouvir o quanto meu coração anseia pela inconsequência de viver sem amarras, sem amanhãs...

Lar, eu sei, é onde meu coração está. E agora ele não se encontra em nada louvável, respeitável, honroso. Meu coração vive me perguntando 'quando?'. Sufoco-o com todos os compromissos que eu acho que devia ter, com a vida que eu acho que deveria querer levar. Ele aperta meu peito nesses dias estranhos.

'Quando?'

Tudo que eu queria era me encaixar, mas a quem isso importa afinal, se no final do dia meu coração clama, 'quando?'

A culpa contamina minha alegria de ser livre, mancha meus dias com 'eu não devia'. Sinto-me impotente diante da carrasca inflexível em que me torno. Roubo minha própria alegria. Os sonhos são impossíveis, 'as pessoas dizem que...'. E eu vivo nessa história sem nenhum amor, porque me parece que é assim que essa história deveria ser. Sem paixão, eu faço tudo certo. No vazio dentro de mim, meu coração ecoa, 'quando?'.

Vejo luz através das rachaduras. Temo pelo estrondo que virá. Poderei um dia me perdoar? Me tornarei uma indisciplinada? Estarei fazendo a coisa certa? Se ainda fosse uma escolha... Mas já não há mais tempo de voltar atrás. Eu nunca soube quais pedaços de mim cairiam, quais das minhas faces eram máscaras, mas ainda assim escolhi esse caminho. Relutante, cada vez que vislumbro o percurso, minha mente diz 'não'. Ela tem a razão, mas não contabiliza minhas ações e vitórias. Minha ânima pertence a outro mestre. A fagulha em meu centro incendeia e tudo que sei de mim cai por terra. Então recomeço, caminhando sigo construindo meu caminho.

Anseio a liberdade do vento, a solidão alegre das noites estreladas, o preenchimento de mim mesma com meus sorrisos, a sensação libertadora do nada, a doce independência de não ter compromissos com os conselhos, o saber-me livre até quando a vontade de ficar me encante.

Que me perdoem os outros com suas expectativas. Eu nunca fui mesmo uma boa menina.

Reafirmo minha fidelidade com meu coração e respondo-o, em meio a dor da dúvida, da libertação e da despedida, 'agora!'.




"Sentindo o meu caminho em meio à escuridão / Guiado pela batida de um coração / Não sei dizer onde a jornada vai acabar / Mas sei onde começar
Dizem-me que sou muito jovem para entender / Dizem que estou preso em um sonho / Bem, a vida vai passar por mim se eu não abrir meus olhos / Por mim tudo bem
Então, acorde-me quando tudo estiver acabado / Quando eu for mais sábio e mais velho / Todo este tempo eu estava procurando por mim mesmo / E não sabia que estava perdido
Tentei carregar o peso do mundo / Mas só tenho duas mãos / Espero ter a chance de viajar o mundo / Mas não tenho nenhum plano / Gostaria de poder permanecer jovem assim para sempre / Sem medo de fechar meus olhos / A vida é um jogo feito para todos / E o amor é um prêmio
Eu não sabia que estava perdido."




terça-feira, 24 de junho de 2014

Essência

Na mania de correr, às vezes me afasto demais das coisas que realmente importam. Para mim.

Nas vozes alheias ouço todas as cobranças e acusações da minha própria neura tirânica.
E me sinto menor.

Esqueço de ver a pintura completa, perdida nos detalhes. Esqueço que cada ponto dessa trama é essencial para a imagem final.
Perco a dimensão das coisas. De mim.

E é preciso voltar ao centro. Nem que seja arrastada.
Olhar para minha pequenez limitante e perceber que a essência não precisa de grandes espaços. Ela encanta pela sua intensidade embriagadora, pela força contida em tão pouco.
Ela é procurada por sua raridade.

E tudo tem o tamanho exato de que precisa ter. E tudo precisa ser exatamente como é.
E é porquê as coisas são o que são que têm o tamanho que possuem, perfeito.





Foto do livro: "A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken" de Jostein Gaarder e Klaus Hagerup.


terça-feira, 3 de junho de 2014

Catarse

Catarse.

Mais conhecido (por mim) como soco no estômago.
Perco todo o ar, as lágrimas vão formigando fazendo seu caminho, vão subindo, apertam dolorosamente o peito, parando na garganta.
Tento me recompor. Sinto o desespero olhando a cara descarnada da verdade. Então eu me dou conta, e é insuportável.
Tapo meu rosto com as mãos, meus olhos... eu não quero ver, dói demais encarar essa senhora. A verdade de repente está ali, a resposta.
Eu mal consigo suportar quando recebo tudo aquilo que pedi. Eu não mereço, é tudo que posso pensar no terror de me encontrar.

Sinto-me devastada pelo turbilhão de ondas, não tenho tempo para retomar o fôlego, uma depois da outra. Imagens, palavras, lembranças, sensações, as lacunas se esclarecem, as peças se encaixam.
E eu não entendo porque me assusto tanto toda vez que conquisto o que busquei.

Meu corpo exausto, travei mil batalhas num minuto, depois o vazio. Preenchê-lo com o cristal, agora ali solidificado, da compreensão, ou com as desconfortáveis mas conhecidas ilusões e embaraços?
A coragem e o amor que tenho bastam pra recomeçar, de novo?




domingo, 18 de maio de 2014

A Beleza do Fim

Lembro do sangue
escorrendo pelos meus braços.
As gotas vertendo da pele branca
deslizando quentes
grandes pérolas vermelhas
lembrando que em mim
ainda existia vida.

Lembro dos tênis manchados com meu precioso sangue. Dos longos dias que se seguiram calçando aqueles tênis, do quanto as manchas escuras pareciam apropriadas, parecia que elas sempre tinham estado ali. Todo dia elas me lembravam da dor característica das lâminas rasgando minha carne, agoniante, como o som de unhas riscando um quadro negro, me preenchendo de um alívio tenebroso no final. Eu fechava os olhos esperando pelo fim. Valia a pena, eu pensava. A tristeza calmante que me invadia valia qualquer corte, eu podia até dormir depois. E a dor que permanecia, nos dias seguintes, eram paliativos, pequenas doses calmantes que me mantinham tranquila. Quanto mais fundo o corte, quanto maior a dor, mais tempo, eu sabia, perdurava a paz. Ninguém percebia, ninguém nunca percebeu. Ou quase ninguém.

Lembro da indiferença que me permitiu sobreviver, enquanto calava meu desespero. Nada podia me afetar. Nada nem ninguém podia chegar tão perto. Eu estava reclusa, eu não era deste mundo, distante como uma estrela fria. Eu não podia me importar, o vácuo silencioso do universo me consumia, eu assistia a perfeita dança do caos, eu estava tão, tão longe... eu mal conseguia enxergar. Distinguia a lua, e antes que meu desespero retornasse, ela me prometia paz eterna. Sentia sua etérea atmosfera, o conforto dos seus gelados braços, enquanto ela vertia em minhas feridas seu bálsamo prateado, e eu entrava em um lindo sonho recebendo um erótico e seco beijo da morte.

E se a fraqueza era visível, eu me alegrava por estar mais leve, mais perto do meu lindo sonho. Não havia calor capaz de me alcançar, eu estava abrigada, perdida num imenso castelo de gelo. Eu nem imaginava que ainda tinha um coração. E quando eu tingia de vermelho toda aquela brancura, só conseguia ver a incrível beleza do contraste, a beleza triste da desesperança, a doçura da entrega... eu estava obcecada pela beleza do fim.

Vivia embriagada pelas visões geladas, pela solidão permissiva, pela fuga. Nada me interessava nesse mundo, além da possibilidade de fugir. Nada valia mais do que poder dizer adeus. As fugazes alegrias passavam por mim como uma brisa. Nada podia, nem precisava ficar; logo, seria eu que iria embora. Não era preciso comer, ou cuidar da saúde, ou manter relações, ou ter dinheiro; só uma coisa precisava dar certo, só uma coisa...

Eu seria como um vento triste que passou levantando algumas folhas. Eu seria um dia cinza assistido sobre a fria areia de uma praia vazia. Eu seria uma noite estrelada registrada em minha própria memória eterna. Nada, nem ninguém, podia me trazer de volta.

A loucura me içou com braços firmes e quentes, ainda que eu não pudesse ver; me manteve seguramente iludida, enquanto as intermináveis tempestades faziam todo o barco ranger. Delirante, eu sonhava acordada com a mortalidade; debaixo de uma chuva torrencial, ela já fazia de tudo para me manter aquecida, para que a circulação vital fosse preservada durante o tempo todo que fosse preciso.
E apesar de toda sua possessividade; apesar de manter-me abraçada quando já não era mais necessário; apesar de ter visto toda fúria devastadora nos seus olhos assim que acordei; ainda assim, só posso agradecê-la. A toda força e resistência que seu exemplo me ensinou. Àquela parte louca e obscura de mim mesma, eu agradeço todos os dias de minha vida que tive deste então. À negra face, assustadoramente indestrutível, que amparou e permitiu a sobrevivência de todas as outras, a minha eterna gratidão.
Não é preciso que se esconda, você é livre, já sei onde te encontrar. Pode ir.









sábado, 10 de maio de 2014

Canalha

E quando eu ouvi me chamarem assim pela primeira vez, sorri, de uma satisfação estranha, "me reconheceram, me descobriram".

E tantas vezes eu quis romantizar as histórias e quando alguém me dizia, "não, você nunca amou ninguém", eu simplesmente emudecia.

E se no caminho tiver dez homens, é pro cabeludo de havainas, tocando violão, que eu vou olhar. Sim, os vagabundos tem um tipo de imã qualquer.
Depois, vou olhar todos os outros.


Eu sempre ouvi, desde muito cedo, "tome cuidado com os homens, eles vão querer se divertir com você". Tudo que eu conseguia pensar era se eu ia me divertir também.

- E se eu me divirto junto, ainda estou sendo usada?
- Sim, porque você vai querer compromisso e o homem não.
- Eu vou querer compromisso?
- Claro, toda mulher quer!
Deviam dizer, "toda mulher DEVE querer", seria mais honesto.

- E quando ele não liga no dia seguinte, você não fica chateada?
- Fico. Se era bom de cama eu fico.
Afinal, se acertar com alguém no sexo não é tão fácil assim como gritam aos quatro ventos.
- Então se você quer ver ele de novo é porque está apaixonada.
- Hum... acho que não, eu mal conheço o cara, e na real ele não é tão legal quanto imaginei.
- Então por que quer ver ele de novo?
- Porque a foda é maravilhosa?
- Você ia querer ver novamente um homem, que você nem gosta tanto assim, só por causa disso?!
Posso ouvir a palavra puta ressoando no silêncio. Eu pisco. Repetidas vezes. O que eu deveria dizer? O que eu realmente diria?
- Um relacionamento é muito mais que isso!
- Eu sei, mas não tô pensando em RELACIONAMENTO ainda, só...
Eu devia me manter calada mais vezes.

Porque as mulheres são puritanas e ingênuas eu não devo me confessar. Por isso prefiro quando me descobrem. Porque nem mesmo eu posso admitir. Todas as desculpas são louváveis, "você está ferida/amargurada/desiludida/enganando a si mesma". Diga qualquer coisa, seja uma triste solitária atrás do amor, incompleta, em busca do homem perfeito, diga qualquer coisa, qualquer coisa, só não confesse que é uma cretina! Que você quer viver um grande amor só depois de ter experimentados todos os lindos homens que puder; que prefere quando eles se mantém calados e muito ativos; que não importa quantos livros ele leu ou o quão articulado ele é, contanto que seja alto e tenha um corpo bem definido; que qualquer informação sobre ele passa a ser secundária quando você vê o sorriso largo e a pele cor de cuia; que apesar das preferências, sempre quer provar de todos os tipos; que cada novo olhar te faz sentir mais viva; que você prefere estar exausta depois de uma noite incrível a receber mensagens fofas no celular; que no fundo não importa o que ele pensa sobre você, contanto que saiba usar bem a língua; que a obediência dele na cama vale mais que qualquer promessa de reencontro; que alguns homens quando te tocam produzem instantaneamente um foco de calor tão intenso, que os imediatismos dos filmes pornôs passam a fazer todo sentido. Ultraje. Heresia. Repita como um mantra: sou uma mulher solitária em busca do verdadeiro amor. Qualquer coisa é admitida, os homens e mulheres podem suportar qualquer triste e humilhante história da sua parte, apenas não confesse! Milênios outorgaram a canalhice aos homens, não ouse cruzar a linha!

E eu vivo apaixonada pela ideia do amor. Tão lindo, tão sublime que me parece inalcançável.
E é claro que eu quero que o verdadeiro, o derradeiro, o grande amor, chegue afinal! Contanto que venha dotado de uma energia, um magnetismo animal e um calor que me deixem zonza.
Porque o coração só se alcança depois de atravessado todo o deserto.









quarta-feira, 19 de março de 2014

Essa Criança

A primeira coisa de que me lembro é do cheiro de bolinho americano, seu gosto e textura. O caminho começava com uma estrada de terra vermelha, a cerração baixa, íamos caminhando até refrescar a alma, na direção da livraria da pequena cidade. Ali, outro mundo, de conforto e cor, se abria. Deslumbrava-me tantas opções, tantos livros e revistas, sendo que um deles voltaria comigo; eu sorria. Depois, na volta para casa, o amarelo alaranjado do bolinho, explodindo em sabor e calor, como um grande sol; eu fechava os olhos e inspirava.

Deitada no berço, levantava minhas pernas pro ar; eu podia ficar horas admirando meus pés; os dedos dos pés; a sensação de um pé tocando o outro, os dedos se encontrando, a chupeta no vão dos dedos... Eu ouvia o silêncio e a solidão, enquanto meus pés me encantavam e eu perdia qualquer noção de tempo.

Lembro das noites claras e o céu forrado de estrelas, o verde vivo do extenso gramado, a sombra recortada da carreta e sua impressionante altura quando me aproximava. Da noite fria, do chão vermelho de pedra, do pequeno gato cinza malhado que eu escondi atrás do altar de Nossa Senhora, de acordar a noite com seu miado, a preocupação de que iriam expulsá-lo, machucá-lo, deixando-o a própria sorte, tão pequeno e órfão quanto eu. Essa ferida é a primeira da qual me lembro.

Os cabelos negros, num curto channel, que eu passei o resto da vida ambicionando ter novamente. Da alegria inocente de um corpo infantil e diminuto, sob a água fresca do chuveiro, do banheiro claro e arejado, das mulheres nuas, com seus grandes corpos e seios imensos, alegres porém muito vulgares, de uma sensação estranha de, de repente, sentir vergonha de mim mesma.

De dançar com os pés descalços no lustrado chão de madeira, do calor na pele quando eu passava pelo raio de sol que entrava na sala, de me imaginar num palco, a vibração dos movimentos no corpo, a saia florida rodando, a postura no último passo, o sorriso, os aplausos, a excitação; o sol nos meus cílios refletindo a luz em mil nuances, espelhando todas as vidas que eu tive e aquelas que ainda vou viver.

Lembro de me sentar na terra para colher morangos, e os comer ali mesmo, embaixo de uma laranjeira, encostada em seu tronco, olhando o mundo como uma deusa em sua divina paz.

Lembro de dividir laranjas com as amigas num dia ensolarado, da acidez e do melado da fruta, dos dedos grudando, das risadas. Da neve que caiu e eu mal vi pela janela. De andar de triciclo pelas ruas arborizadas que levavam à casa da bisavó. Do biquíni azul e amarelo com bolinhas brancas e a limonada gelada no verão. De escorregar em cima de um tecido preto, no declive do terreno. Do porão, empoeirado e atrativo. De todos os cheiros, luzes, cores e sensações. O passado se movendo tanto quanto o presente, tão distante quanto a lembrança da memória de outrem.

Ela sempre me vem com poesia, essa criança, mostrar que a realidade só é plena quando incluído todos seus sonhos e delírios.