Grande parte
das vezes, tento me mostrar assertiva, paciente. Tenciono a mostrar em público
a mulher justa e benevolente que também sou. Salvo algumas vezes em que, fervido, o veneno borbulha e sobe, escorrendo pela boca.
Até na escrita
me refreio. E é também na literatura que me salvo, que me resguardo; amante
secreta das terríveis personagens, aquelas fortes de personalidade, impossíveis
de passarem despercebidas. Os vilões bem humorados e inteligentes; os sádicos
que sabem tão bem expressar sentimentos; os falsos que cativam pela perspicácia
e atuação; os amargurados que jamais perdoam; os loucos e brilhantes; os
insanos obstinados; os mocinhos vingativos; os misteriosos sedutores; e
finalmente, os órfãos, todos tão duais.
Através da
escrita geniosa de outros autores, me permito rir da miséria humana; vingar-me
engenhosamente; assistir, sem piscar, a derrota do inimigo; licantropicamente
rugir com toda fúria; rir insanamente; matar-me e salvar-me, quantas vezes
forem preciso.
Tanta maldade
reunida não faria sentido se isolada. O terror pelo terror simplesmente, não
atrai. É preciso a sagacidade dos bons suspenses. É preciso, como já disse, das
personagens singulares.
E eu me
pergunto se não é toda essa estupidez que me falta, pelo menos nos escritos. Se
não é pelo emendo das palavras que posso destilar, de forma fecunda e
construtiva, e assim, limpar minha circulação da toxina que me consome.
Pergunto-me o quanto de perverso tem um bom escritor.

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