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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

sexta-feira, 29 de março de 2013

Veneno


Grande parte das vezes, tento me mostrar assertiva, paciente. Tenciono a mostrar em público a mulher justa e benevolente que também sou. Salvo algumas vezes em que, fervido, o veneno borbulha e sobe, escorrendo pela boca.

Até na escrita me refreio. E é também na literatura que me salvo, que me resguardo; amante secreta das terríveis personagens, aquelas fortes de personalidade, impossíveis de passarem despercebidas. Os vilões bem humorados e inteligentes; os sádicos que sabem tão bem expressar sentimentos; os falsos que cativam pela perspicácia e atuação; os amargurados que jamais perdoam; os loucos e brilhantes; os insanos obstinados; os mocinhos vingativos; os misteriosos sedutores; e finalmente, os órfãos, todos tão duais.

Através da escrita geniosa de outros autores, me permito rir da miséria humana; vingar-me engenhosamente; assistir, sem piscar, a derrota do inimigo; licantropicamente rugir com toda fúria; rir insanamente; matar-me e salvar-me, quantas vezes forem preciso.

Tanta maldade reunida não faria sentido se isolada. O terror pelo terror simplesmente, não atrai. É preciso a sagacidade dos bons suspenses. É preciso, como já disse, das personagens singulares.

E eu me pergunto se não é toda essa estupidez que me falta, pelo menos nos escritos. Se não é pelo emendo das palavras que posso destilar, de forma fecunda e construtiva, e assim, limpar minha circulação da toxina que me consome. Pergunto-me o quanto de perverso tem um bom escritor.








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