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Carta-Poema II

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domingo, 3 de março de 2013

Fogo Alquímico


Estou lendo o livro O Tempero da Bruxa, de Maria Silvia P. Orlovas, que fala sobre magia e culinária, e o quanto essas coisas estão relacionadas. O quanto cozinhar mexe com nossas emoções... Nosso poder inato de alquimia.
Já li em algum lugar sobre feng shui, que o fogão é o coração da casa, da cozinha...

Lembrei-me dos meus primeiros anos de casada. Eu sentia tanto prazer em cozinhar! Criar receitas, misturar temperos, cheiros, sabores... O processo de ver a comida se transformar através das minhas mãos e alegrar as pessoas que eu amava me enchia de uma satisfação única!
Lembro também, que já não conseguia chegar perto da cozinha no último ano de casamento... Aquilo me enchia de tédio e irritação.

Depois da separação minha maior preocupação era tirar o forno elétrico que eu tanto usava de dentro de casa. Vender, dar, pouco importava; só queria tirar ele da minha vista. O fogão virou objeto de decoração. Até hoje, e lá se vão um ano e meio, nunca mais usei meu fogão, salvo as poucas vezes em que esquentei uma água pro chá, ou um leite pro café.
Nunca mais cozinhei. Nem pra mim, nem para os outros. Habituei-me a alimentos frios, que saem direto da geladeira para o prato, lanches e frutas. Aproveito para comer refeições quentes quando vou a restaurantes e quando visito parentes.

Ainda não entendi direito o que essa mudança significa, mas tenho pensado nisso ultimamente. Os sentimentos me invadem e tento estabelecer relações. Será que me tornei uma pessoa vazia? Será que meu coração também se gelou?

A consciência de que apenas eu mesma posso me completar e me amar verdadeiramente; que apenas eu mesma sou capaz de alimentar o amor que eu quero e mereço, trouxe plenitude para minha vida! Não preciso esperar por ninguém. Já divido minhas experiências, os pequenos milagres do dia a dia, minhas derrotas e conquistas com alguém que me entende e cuida de mim, cada vez mais. Sempre fui completa.

E agora, há poucas semanas, me vem esse questionamento. Essa voz longe, que de vez em quando sussurra, perguntando-me se eu ainda sei dividir, se eu ainda sei me doar.
Rebato: Se todos somos completos, qual a necessidade de compartilhar-se com o outro? Por que conviver com alguém, que naturalmente, não pode me acrescentar?
A fraca voz silencia e sorrio aliviada.

É claro que quero investigar-me a fundo, foi minha escolha consciente. Quero rasgar-me em meio ao fogo do conhecimento e ressurgir fortalecida a cada monstrinho exorcizado.
Porém, vamos devagar. Por favor.








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