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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

sábado, 4 de maio de 2013

Diabo do Amor

Há duas semanas que eu penava em ler um livrinho fino. Quem diria!
Escolhi um lugar calmo, ao ar livre; um cantinho perto da saída dos fundos do Instituto; um bom lugar. Instalei-me confortavelmente, e me resignei a ler o livro, sem me levar por distrações!

Passou-se um tempo de sucesso na tarefa. Então ouvi a porta abrir. Seja lá quem tivesse saído, devia ter ficado parado, observando-me. Eu podia sentir, alguém me olhava intensamente! Decidi que manteria os olhos no pequeno livro, embora minha leitura já estivesse prejudicada. Comecei a mover os pés, inquieta com a insistência do observador. Eu estava decidida: não iria olhar! Nisso minha mente teve um lapso de calmaria e por ela passou uma imagem fugaz, seguida de um rápido pensamento: não seria muito louco se meu observador fosse ele?
Fosse quem fosse, finalmente desistiu e com passos rápidos se afastou.

O livro caiu no meu colo e minha respiração parou alguns segundos quando ergui os olhos e o vi se afastando. Era ele! Decididamente, minha leitura foi comprometida!
Não era ilusão afinal, de fato eu vi a cena toda com minha visão sutil! Era ele que me observava tão fortemente, tão calorosamente; era ele que esperava minha permissão e iniciativa para a conversa, aproximação talvez...

Posso sentir o olhar dele me queimando, me perscrutando... então eu sinto medo do que ele pode ver.
Ardente, um prazer quase doloroso. Meu corpo todo se dilata num desejo silencioso. Como eu quero esse homem! Minha desconcentração tem nome. Nome de anjo, mas ele é um diabo do amor. 
Quando me olha de canto, tudo que eu posso é ser sua.
Eu só quero esse olhar, me queimando, mais e mais! Seus olhos me fitam em sonhos e não posso mais conter ou fingir.
Quando me olha de cima, tudo que eu quero é me submeter.
Quando seus olhos brilham maliciosamente, posso sentir o fogo lambendo minha pele.
Que loucura, meu deus, que loucura!

Todo tempo que neguei essa atração arrebatadora, deu em nada.
Mantive a mente silenciosa, enquanto os acontecimentos me aproximavam, me induziam. Até pareciam golpes de sorte. Ou de azar.

Continuarei deixando que os acontecimentos me auxiliem, me surpreendam; deixarei meus sentimentos expostos; disponível ficarei ao fogo. Que ele me consuma, me devore.
Inteira.




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Dezessete Anos


O dia era ameno, de uma brisa suave. Estávamos sentados no banco de pedra, num recanto quase desapercebido, entre plantas e flores. Ele permanecia com seu ar tranquilo, jovial. Um menino. O rosto tão claro, os olhos limpos, inocentes. E por mais que me falasse de seu pessimismo, seu doce sorriso o enganava. Tão encantador!... Um menino, apenas um menino! O que eu estava pensando?

- Por que está tão triste? - ele perguntou suavemente, sempre tão atento...

- Você é tão jovem! Tão novo! – Coloquei as mãos sobre a boca, como em silenciosa oração. – Quando eu tinha 17 anos... – Um profundo e curto suspiro me interrompeu.

Eu sacudi negativamente a cabeça e virei o rosto, respirando, tentando manter o equilíbrio sobre mim mesma, mas quanto mais esforço fazia, minhas inspirações e expirações mergulhavam-me em memórias. Tantos sonhos, tantas esperanças eu tinha aos 17 anos! Tanta coisa perdida... O tempo agora passa impiedoso e eu já não espero grandes coisas. Pensar que talvez eu esteja ainda mais perto do fim do que se possa imaginar. Provavelmente doente. Mas eu nem pareço tão mal. Na verdade, me sinto bem fisicamente, como há muito não me sentia. Estranha vida.

Engulo todo o choro. Sinto o aperto na garganta se tornar tolerável. Já posso forçar um meigo sorriso. Sei que de alguma forma ele se preocupa e que quando olha nos meus olhos pode me ver. Sabe que estou triste, mas é maduro o suficiente para respeitar a minha dor, minhas histórias e segredos. E é justamente isso que me arrebata, sua discrição. Seus pequenos gestos de gentileza lembram um verdadeiro gentleman, normalmente estranhos a um menino. Sinto-me tão a vontade do seu lado! Eu poderia amá-lo. Posso ver seu corpo suado, à meia-luz, enquanto descanso no seu peito; ofegantes, satisfeitos, enternecidos...

Eu poderia amá-lo, certamente. Mas sei que é somente um menino, ainda crente da vida e do amor. Não teria suportes para sustentar uma forte paixão, nem suas dores. Não suportaria meus dias sombrios. Seria envenenado por minha tristeza. Não. Tenho por ele imenso carinho. Não serei eu que o farei um homem.