Já nas primeiras páginas da obra de Eurípedes se vê que a personagem principal, Medéia, tem personalidade, força e coragem. Meu professor de literatura, Willy Petersen, diz que esse foi o primeiro livro feminista. De fato, acredito que o enredo deve envolver, e a empatia com Medéia acontecer, com maior facilidade nas leitoras.
Certamente, Medéia não é do tipo comum de heroína, mas tão pouco me parece vilã. Apesar de conhecer feitiços e possuir poderes sobrenaturais, que a fazem se distanciar da mulher comum, ela me lembra Nietzsche, sendo demasiadamente humana nas suas paixões, no seu arrebatamento, na sua impulsividade, no seu amor, na sua ira, no seu arrependimento.
Começa aí, nessa história, o desejo feminino de viver independente, devido, nesse caso, a atual e sempre famosa, infidelidade masculina. A fuga das mulheres do amor romântico começa aqui, com uma líder nada convencional. Ainda mais se pensarmos a época em que a peça foi escrita e encenada: 400 a.C.
Vê-se que a busca de sua identidade, própria e individual, e a vontade de se livrar do estereótipo feminino, vem de uma longa caminhada.
Longa até demais! Visto que as mulheres ainda sofrem nas suas escolhas, caindo, mais cedo ou um pouco mais tarde, em um dos modelos tão divulgados de “mulher moderna”.
A tradicional mãe amorosa, que hoje, se escolhe ficar em casa para melhor cuidar dos filhos é mal vista, principalmente pelas outras mulheres, como acomodada: “Onde já se viu?! Largar tudo pra viver só pelos filhos!”. Valorizada, atualmente, é a mulher maravilha: mãe dedicada, chefe de uma empresa ou sócia de uma organização, cuida do corpo (faz academia, pilates, yoga...), da alimentação, da casa, cozinha bem, é inteligente, independente, bem humorada, sexy, conhecedora da arte do poli dance, se sente bem disposta todas as noites. E apesar de tudo isso, ainda é feliz!!! O_O
O que mais se ouve é: “hoje a mulher tem que fazer isso, nos dias atuais a mulher tem que ser aquilo...”.
A mulher precisa acima de tudo se livrar de qualquer papel e Medéia nos mostra que não é de hoje.

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