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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

quarta-feira, 19 de março de 2014

Essa Criança

A primeira coisa de que me lembro é do cheiro de bolinho americano, seu gosto e textura. O caminho começava com uma estrada de terra vermelha, a cerração baixa, íamos caminhando até refrescar a alma, na direção da livraria da pequena cidade. Ali, outro mundo, de conforto e cor, se abria. Deslumbrava-me tantas opções, tantos livros e revistas, sendo que um deles voltaria comigo; eu sorria. Depois, na volta para casa, o amarelo alaranjado do bolinho, explodindo em sabor e calor, como um grande sol; eu fechava os olhos e inspirava.

Deitada no berço, levantava minhas pernas pro ar; eu podia ficar horas admirando meus pés; os dedos dos pés; a sensação de um pé tocando o outro, os dedos se encontrando, a chupeta no vão dos dedos... Eu ouvia o silêncio e a solidão, enquanto meus pés me encantavam e eu perdia qualquer noção de tempo.

Lembro das noites claras e o céu forrado de estrelas, o verde vivo do extenso gramado, a sombra recortada da carreta e sua impressionante altura quando me aproximava. Da noite fria, do chão vermelho de pedra, do pequeno gato cinza malhado que eu escondi atrás do altar de Nossa Senhora, de acordar a noite com seu miado, a preocupação de que iriam expulsá-lo, machucá-lo, deixando-o a própria sorte, tão pequeno e órfão quanto eu. Essa ferida é a primeira da qual me lembro.

Os cabelos negros, num curto channel, que eu passei o resto da vida ambicionando ter novamente. Da alegria inocente de um corpo infantil e diminuto, sob a água fresca do chuveiro, do banheiro claro e arejado, das mulheres nuas, com seus grandes corpos e seios imensos, alegres porém muito vulgares, de uma sensação estranha de, de repente, sentir vergonha de mim mesma.

De dançar com os pés descalços no lustrado chão de madeira, do calor na pele quando eu passava pelo raio de sol que entrava na sala, de me imaginar num palco, a vibração dos movimentos no corpo, a saia florida rodando, a postura no último passo, o sorriso, os aplausos, a excitação; o sol nos meus cílios refletindo a luz em mil nuances, espelhando todas as vidas que eu tive e aquelas que ainda vou viver.

Lembro de me sentar na terra para colher morangos, e os comer ali mesmo, embaixo de uma laranjeira, encostada em seu tronco, olhando o mundo como uma deusa em sua divina paz.

Lembro de dividir laranjas com as amigas num dia ensolarado, da acidez e do melado da fruta, dos dedos grudando, das risadas. Da neve que caiu e eu mal vi pela janela. De andar de triciclo pelas ruas arborizadas que levavam à casa da bisavó. Do biquíni azul e amarelo com bolinhas brancas e a limonada gelada no verão. De escorregar em cima de um tecido preto, no declive do terreno. Do porão, empoeirado e atrativo. De todos os cheiros, luzes, cores e sensações. O passado se movendo tanto quanto o presente, tão distante quanto a lembrança da memória de outrem.

Ela sempre me vem com poesia, essa criança, mostrar que a realidade só é plena quando incluído todos seus sonhos e delírios.








terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Eu vejo você (I see you)

Eu posso ver em você toda a bondade e a doçura que enternecem meu coração.
A capacidade de sentir e se expandir na dor e na alegria, tornando-se mais profunda e terna.
Vejo em você a coragem de prosseguir, de tentar de novo e de novo, uma vez mais.

Eu admiro sua crença no amor e sua capacidade de se doar.
Sua beleza delicada, assim como seu porte altivo e sua presença marcante, me apaixonam.
Me ilumino com a luz que irradia da sua alegria.
Eu vejo sua essência em cada doce sorriso, em cada saudação sincera.

Seu amor profundo pela vida na terra, pela natureza e os animais me cativam.
Sua força em ouvir e animar os amigos; em afirmar às crianças que um mundo melhor é possível, mesmo quando você mesma não tem mais tanta certeza; a compaixão pela criança que um dia você foi e que consegue estender a todas aquelas que cruzam seu caminho.
Eu vejo em você.
O poder de perdoar.
De consolar a si mesma e erguer-se quando é hora de seguir.

Vejo quando a dor transpassa sua alma e você cai.
Quando você se sente tão fraca a ponto de desistir.
Quando a vida se torna cinza e a solidão é um silêncio aterrador.
Quando o medo e o cansaço te tornam confusa e você reage com raiva.
Quando você corre, porque esse é o jeito que você sabe fazer.
Eu sei quem você é através de todas suas defesas.

Eu quero te acolher quando vejo seu desespero.
Te aquecer com meu calor, quando o inverno da vida te torna fria e insensível.
Eu quero te lembrar do meu amor por você.

Tudo bem, não precisa mudar.
Quem você é, é o suficiente.
Eu posso ver.
Posso ver tudo daqui.
Posso me ver em você, quando você permite esse encontro, seja no centro macio do coração ou nos seus olhos refletidos no espelho.