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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

terça-feira, 31 de agosto de 2004

Eu não me importo

Eu não ligo para o que você acha
Eu não me comovo com os seus lamentos
Eu não me importo com o seu desgosto

Pouco me importa o que você pensa
Pouco me interessa como você se sente
Pouco me afeta suas chantagens

Não consigo acreditar na sua boa vontade
Não consigo acreditar na sua medida de intensidade
Não consigo acreditar que permaneço aqui

Permaneço distante para não quebrar nenhum móvel
Permaneço indiferente para não te tratar com ódio
Permaneço aqui por covardia.

Continuo na desonestidade para ser verdadeira
Continuo me escondendo para ser livre
Continuo imaginando como tudo poderia ser diferente...




segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Lar

Ela acha
que pode me controlar.
Pensa
que pode me comandar.
Ela não sabe
que eu sou livre.
Não sabe
que eu pertenço ao céu.
Ela não pode me comandar
ninguém pode.
Ela acha que pode me deixar aqui
presa.

Agora eu estou aqui
atrás de uma grade
sem poder olhar a luz da Lua
vendo um minúsculo pedaço do céu
e uma parede interminável.
Talvez eu perca os melhores anos
da minha juventude; possivelmente
seja impossível recuperá-los.
Mas o que eu vou fazer?
Me desesperar? Isso não adiantaria muito.

Parece um pesadelo que nunca acaba
e eu sonho com o céu
sonho frequentemente com as estrelas
com planetas e galáxias distantes.
O céu me chama insistentemente
todos os dias
e eu tenho vontade de me ajoelhar
de me perder
de me teletransportar para o meu lugar
e lá de cima avistar todo o Universo
num movimento constante
num brilho intenso
numa implacável grandeza.
Então
eu sinto que posso voar
sinto que o Universo inteiro
está dentro de minh'alma
e que dentro de minha mente
permanece todo o poder.

É quando ouço gritarem comigo
dizendo que não posso viver nesse estado de transe
que agora, estou aqui.
Entre grades.
É quando sinto um vazio profundo
é quando sinto solidão.
É quando não suporto esperar
quando não suporto a distância.
É quando a solidão se torna mais só
é quando não suporto o peso desse corpo
quando não suporto as mágoas dessa vida.
É quando desejo a morte
quando desejo voltar logo para o meu lar.
Onde minha bondade
não vai ser tão friamente dilacerada.
Onde não existem grades
nem reis, nem servos, nem tempo, nem espaço
nem impossível.

Lá onde minha alma reside
é lá onde quero estar.
Lá
onde permaneço a sonhar
a sorrir, a amar.
Lá
onde um alguém me espera
e que na verdade
é apenas uma parte de mim.
É quando a Lua me traz a certeza
de que isso não vai durar para sempre
de que ainda vou ser completamente livre
sem ter que me esconder
sem ter que me preocupar
com a veracidade da minha mentira.

Não importa quantas grades e muros me separem do ar
eu sou e sempre serei filha da Grande Deusa
e não importa se ninguém me compreenda
eu não faço parte desse mundo
porque um outro mundo me contém
porque algo muito mais além em mim persiste
e algo muito maior me espera.

E eu sei, que lá eu voltarei.
Porque é lá, na verdade, que sempre estive.