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Carta-Poema II

Eu me perdoo. Por todas às vezes que eu disse que não ia e fui. Por todas as palavras contraditas Por todas as ações julgadas e incompre...

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Viver é ser o que se é

Para Aristóteles, seres naturais são aqueles que “tem dentro de si um princípio de mudança e de repouso” (Física II.1,192b13-14), um princípio interno que os move através da vida. Os seres naturais: nascem, crescem, desenvolvem-se, permanecem em alguns estágios da vida por algum tempo, locomovem-se, reproduzem e também morrem. Os seres naturais são todos aqueles dotados de vida, de anima: plantas e animais de todos os tipos. Eles têm como que um motor próprio que os impulsiona e os direciona à vida. Muito diferente disso, são os artefatos, objetos que são criados, moldados pelas mãos de um artesão ou um fabricante. Artefatos precisam de uma causa externa a eles para existirem. Mesas, por exemplo, não nascem ou morrem, nem se reproduzem; mesas são criadas e destruídas, assim mesmo, sem grandes sentimentalismos, na maioria das vezes.

Quando perguntamos a causa de uma mesa, podemos dizer que sua causa material é a madeira (no caso de ter sido fabricada com essa matéria), e que ela tem a forma de uma mesa para que possamos colocar coisas em cima dela. É aparentemente simples explicar e entender porque uma mesa é o que é. O mesmo não ocorre com os seres naturais. Para compreender os seres naturais, o porquê um homem é o que é, por exemplo, devemos entender sua finalidade, aquilo em vista do que ele existe.

No exemplo da mesa de madeira, fica claro que ela poderia ser de algum outro material, de ferro talvez, mas que construída de acordo com a forma de uma mesa, ainda assim seria uma mesa. Com os artefatos fica mais fácil visualizar como que a forma, em certo grau, é mais importante que a matéria. Já nos seres naturais é diferente; podemos entender separadamente o que é forma e matéria, mas eles são componentes constitutivos, não desassociamos matéria e forma porque ambos formam a unidade dos organismos, para haver um é preciso o outro e vice-e-versa; a forma é sobretudo, mas não é sozinha. Os ossos e carnes que formam um gato, por exemplo, estão configurados numa determinada forma, que por sua vez só poderia ser realizada naquelas carnes e ossos, e esse conjunto organizado desse jeito é o animal gato.

Assim, um conjunto de coisas não é de fato uma unidade, da mesma forma que uma pilha de madeira não é uma mesa e um amontoado de carnes e ossos não é um gato. O que falta ao conjunto que está presente na unidade é a forma, a configuração, a organização em que essas coisas estão dispostas e como elas se interferem. E é desse ponto de vista que a forma tem prioridade em relação à matéria. Nos seres naturais, a forma é como um poder (dýnamis), a dinâmica que mantém e induz o ser ao seu pleno desenvolvimento, que é sua finalidade enquanto ser natural. 

A forma existe em diversos níveis. A forma de um filhote de gato é aquela que organiza o ser naquilo que atualmente ele é: um gatinho. Dentro de si, o gatinho tem a natureza, o impulso natural de crescer e se desenvolver, até se transformar em um gato adulto no pleno exercício de sua maturidade. Esse impulso natural é também a sua forma, direcionando o desenvolvimento do ser para as suas formas potenciais. Enquanto filhote, talvez o gato ainda não consiga subir em cima da cama (o meu aos três meses de idade não conseguia), mas quando adulto certamente ele conseguirá. As atividades de um gato adulto já fazem parte da sua forma potencial, que ele poderá realizar assim que atingir com sucesso o desenvolvimento natural do seu ser, direcionado pela sua própria força interna de alcançar sua finalidade. Ou seja, a sua forma irá mantê-lo, desenvolvê-lo e direcioná-lo até que suas potencialidades sejam plenamente atualizadas, alcançando assim a finalidade do seu ser, o aquilo em vista do que o ser natural existe. No caso, o gato existe com a finalidade de ser um gato, plenamente atualizado em suas capacidades e no auge da sua maturidade. 

Portanto, o fim (telos), a finalidade de todos os seres naturais, assim como a do ser humano, é ser plenamente aquilo que é. Isso significa desenvolver e realizar plenamente suas capacidades, alcançar sua maturidade enquanto indivíduo de uma determinada espécie, seguir seu impulso natural e interno de vida, sua natureza. Como diz Almir Sater, na música Tocando em Frente: “Penso que cumprir a vida/ Seja simplesmente/ Compreender a marcha/ E ir tocando em frente/ Cada ser em si/ Carrega o dom de ser capaz”. As coisas recebem uma denominação quando tem a capacidade para tal; assim como os seres naturais ainda que não tenham consciência de quais são exatamente suas capacidades estão destinados a serem plenamente o que são. Nós humanos, somos por natureza construtores da realidade, e ainda que não saibamos exatamente quais caminhos devemos tomar, nosso poder interno de vida nos direcionará à realização plena daquilo que somos, pontos focais nos quais o mundo está conhecendo a si mesmo.





"Penso que cumprir a vida seja simplesmente / Compreender a marcha e ir tocando em frente 
Cada um de nós compõe a sua história / Cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz!"




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O homem que eu amo

Não posso ficar
com alguém que não goste de mim.
Que se importa comigo 
tanto quanto se importa com qualquer um.
Alguém que é capaz 
de assumir compromissos e quebrar regras 
por outras mulheres
não por mim.
Capaz de amar 
qualquer vadia dessa cidade
mas não a mim.
Eu não sou o bastante
não sou o suficiente
pra ser melhor que qualquer uma.
Eu sempre fui mais uma
na sua contagem
mais uma
que não queria ver.

Sempre a puta, o prêmio na cama
impulsiva e intensa demais 
pra ter acesso à qualquer casa
à qualquer coração.
Relegada ao afeto 
que sobra
ao revanchismo.

E eu que poderia amar
e ser amada, assim 
pela metade
Eu que poderia me converter
me domesticar
num cãozinho obediente
numa moça recatada 
e cheia de virtudes
por todos querida e amada.
Eu 
sorrio de prazer
enquanto assisto meu lobo 
estraçalhar a ovelha indefesa 
que eu poderia ser.

Ah não, eu não! Eu amo
e sou amada
inteira.
Eu amo 
essa fúria descontrolada
esse ardor que me consome
essa febre.
Eu amo meu grito
e minha pressa
minha sede e minha fome
de sempre mais.
Amo minha contagiante alegria
meu humor escrachado
minha sensibilidade afiada
meus olhos rasos d'água
minha boca curvada num sorriso apaixonante.
Amo a ferocidade que me ergue 
e me mantém
e a doçura que me invade
depois da luta.

E o homem que me ama
ama apaixonadamente minhas loucuras
tanto quanto eu.
O homem que me ama
respeita meus limites e desafios
tanto quanto respeita os seus.
O homem que eu amo
é aquele que me ama
aquele que não teme
a proximidade
e adora 
brincar com fogo.