com alguém que não goste de mim.
Que se importa comigo
tanto quanto se importa com qualquer um.
Alguém que é capaz
de assumir compromissos e quebrar regras
por outras mulheres
não por mim.
Capaz de amar
qualquer vadia dessa cidade
mas não a mim.
Eu não sou o bastante
não sou o suficiente
pra ser melhor que qualquer uma.
Eu sempre fui mais uma
na sua contagem
mais uma
que não queria ver.
Sempre a puta, o prêmio na cama
impulsiva e intensa demais
pra ter acesso à qualquer casa
à qualquer coração.
Relegada ao afeto
que sobra
ao revanchismo.
E eu que poderia amar
e ser amada, assim
pela metade
Eu que poderia me converter
me domesticar
num cãozinho obediente
numa moça recatada
e cheia de virtudes
por todos querida e amada.
Eu
sorrio de prazer
enquanto assisto meu lobo
estraçalhar a ovelha indefesa
que eu poderia ser.
Ah não, eu não! Eu amo
e sou amada
inteira.
Eu amo
essa fúria descontrolada
esse ardor que me consome
essa febre.
Eu amo meu grito
e minha pressa
minha sede e minha fome
de sempre mais.
Amo minha contagiante alegria
meu humor escrachado
minha sensibilidade afiada
meus olhos rasos d'água
minha boca curvada num sorriso apaixonante.
Amo a ferocidade que me ergue
e me mantém
e a doçura que me invade
depois da luta.
E o homem que me ama
ama apaixonadamente minhas loucuras
tanto quanto eu.
O homem que me ama
respeita meus limites e desafios
tanto quanto respeita os seus.
O homem que eu amo
é aquele que me ama
aquele que não teme
a proximidade
a proximidade
e adora
brincar com fogo.
